A cegueira do conhecimento

Se existe profundidade é preciso que ela suba à superfície. Porque hoje a superficialidade se impõe à profundidade”, diz o filósofo alemão Peter Sloterdijk, para quem a vida atual não convida a pensar. Precisamos nos renovar sem nos fechar nos modismos.

A humanidade é una e diversa porém, estamos nos mostrando adaptados para agradar, para receber elogios, estamos lendo o que se comenta nos grupos porque pesquisar tem sido até certo ponto, um exercício doloroso de resgate de uma vida, que tornou-se esvaziada pela pressa e pela superficialidade a que estamos submetidos nas práticas diárias. Dos baques sofridos não temos aprendido quase nada. Tomados pela vaidade, deixamos para trás o frescor dos fins de tarde e nos trancamos vencidos pelo cansaço de um dia vivido em colisões frontais por espaço político, para manter uma posição, para manter o relacionamento corroído pela aspereza. Enfim, temos sido aprisionados pela rotina, condicionados à incerteza, a falta de contextualização, de ponderação. Não estamos aproveitando a passagem do tempo a nosso favor.

O sociólogo francês Edgar Morin, numa entrevista disse: “Não ensinamos a compreensão do outro, que é fundamental aos nossos dias, não ensinamos a incerteza, o que é o ser humano, como se nossa identidade humana não fosse de nenhum interesse. As coisas mais importantes a saber não se ensinam”.

Morin, que não se cansa de debater a relação entre a razão e a emoção no pensamento complexo, estamos perdidos, irremediavelmente perdidos. Estamos perdidos e falhamos porque nem todos tem uma casa, um lar, falhamos na proteção do nosso planeta, falhamos porque não fomos capazes de viver integrados o homem e a natureza. A natureza humana está perdida.

Segundo Morin, estamos perdidos e essa pode ser a nossa salvação, se explorarmos as brechas, as frestas por onde entram o ar fresco das metamorfoses que proporcionam as mudanças.

Como disse o poeta T.S.Elliot: “no meu fim, está o meu começo”. Quando um sistema se desintegra dá lugar a um outro. Devemos reformar nossas vidas, abandonar o ciclo artificial onde os valores são reduzidos na ostentação de roupas, cargos, comida, jóias e carros. Para restaurar a natureza do humano é preciso bem mais. É preciso crer na autonomia, conservar a unidade, respeitando a diversidade humana, acreditar que pensar é iluminar caminhos, é validar projetos humanizados, é escolher o melhor, é conhecer os riscos seguir seguro rumo aos desafios.

As necessidades e potencialidades deveriam nos levar a um placar de empate, no entanto, temos negligenciado nossos valores interiores. Não lemos porque tememos não compreender, não estendemos a mão, porque tememos ser tocados, não ouvimos o outro, porque colocamos nossas verdades acima de tudo. Sinceramente?

Se um dia nos fizeram simples, nos afastamos dessa natureza e resgatá-la é o serviço de emergência que vai nos devolver os movimentos vitais. O bem-estar não é apenas material. Devemos mergulhar em nossa profundidade e dedicar tempo às amizades, leituras, pensamento crítico, tolerância e respeito; coisas e sentimentos que habitam o lado profundo da vida e, tão somente, apenas esporadicamente tem emergido à superfície para serem pinçados aqui e ali para nos mostrar que há um mal-estar quando se vive acomodado na superfície, seguindo a moda, o grupo, sem acrescentar contribuição alguma porque você se fez sombra.

Edgar Morin estudou a superficialidade da sociedade contemporânea, o mal-estar de vivermos desapegados da boa educação e da cultura transformadora. Críticas que chamou à atenção da Unesco, que convidou o sociólogo para sistematizar um conjunto de reflexões sobre a cegueira do conhecimento.

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