O flagelo da fome assombra o Brasil

Mais de 33 milhões de brasileiros estão vivendo em situação desumana de fome, expressada na pesquisa como Insegurança Alimentar Grave. Em números reais, significa dizer que 14 milhões de novos brasileiros deixaram de ter o que comer nos últimos 2 anos. Em 2020 eram 19,1 milhões, hoje, atingimos o escandaloso número de 33,1 milhões de irmãos famintos.

A Insegurança Alimentar e a fome, propriamente dita, entre crianças e adolescentes tem sido sistematicamente denunciadas pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), pelos seus impactos perversos e imediatos sobre o desenvolvimento das potencialidades físicas e sociais dos jovens atingidos. Em entrevista, o sociólogo e ex-relator da ONU Jean Ziegler chama-nos à responsabilidade: “Cada um de nós é responsável por cada criança que morre de fome”.

Num relatório comovente e transparente a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), contribui para dar visibilidade a tamanha miséria e vulnerabilidade e quem sabe contribui para o debate fundamentado sobre a rompante desigualdade social vigente no Brasil. Em um ano de eleições, tomara que esses dados divulgados e amplamente comentados nas mídias entrem nas agendas dos candidatos, para que retomem o enfrentamento da fome e da pobreza como política de estado.

Eu não saberia descrever a sensação de fome e ao ler o relatório na sua integralidade, nem alegro-me por isso. E entristece-me mais reler um artigo que escrevi comovida neste espaço em 2011, quando um relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) anunciava que o Brasil, naquele ano, pelo segundo ano consecutivo, liderava o ranking dos países com a melhor performance no combate à fome. Felizes, lembrávamos do Instituto Ação da Cidadania, iniciado lá atrás pelo Betinho, que a cada entrevista reafirmava que “quem tem fome, tem pressa”.

Hoje, cá estamos, em um retrocesso intolerável e inaceitável convivendo com 33 milhões de brasileiros que não tem o que comer. De acordo com o relatório, o Brasil regrediu ao patamar da década de 1990. Sabemos que a situação foi crescendo até seu ápice. Desde 2015 a Ação Cidadania vem testemunhando e alertando que fome estava voltando com força devido ao desmonte das redes assistenciais, a exclusão completa, a invisibilidade de milhares, que não foram absorvidos por nenhum programa de auxílio do governo.

Os dados assombram a ONU que durante anos em suas reuniões de cúpula tem fixado a inalcançável meta de acabar com a pobreza e a fome. É preciso tratar o assunto com o governo brasileiro, que ao longo dos anos não promoveu a expansão da rede de assistência social, tampouco criou mecanismos eficientes para proteger as pessoas com maior vulnerabilidade. Na sociedade não há sequer significativo debate sobre o tema.

O Brasil ocupa hoje a 24ª posição entre os países com maior número de milionários no mundo, são 207 mil pessoas, com fortuna acima de 1 milhão de dólares

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