Na política eno futebol, raramente perde quem deu o seu melhor

Temos que nos sentar com algum desconforto se quisermos ter uma coexistência pacífica e civilizada uns com os outros. Ser continuamente consumido em ver o outro como errado e fracassado nos impede de experimentar uma gama mais ampla de relacionamentos, de fazer novas descobertas e talvez também de nos maravilhar com a diversidade da vida e aprender com as derrotas.

Desarmar o espírito não é fácil, mas que arrogância desmedida é essa que nos faz crer que nascemos fadados à vitória, sempre? Milhares de pessoas não conseguiram absorver e superar a derrota na política e agora, no futebol. Há pessoas que não sabem o que é uma derrota, porque se recusam a reconhecê-la e vivem em estado de negação. Na verdade, aquele que nunca foi derrotado talvez nunca tenha, de fato, lutado.

Há uma tradicional frase que diz que política, futebol e religião não se misturam. Na prática, não é assim. Política e futebol se misturam há muito tempo e isso voltou latente durante a ditadura militar brasileira, quando o presidente Castelo Branco determinou intervenção dos militares na Confederação de Futebol. Em 1970, o Presidente Médici, que era apaixonado por futebol, tentou interferir na escalação da seleção brasileira, porque não gostou da convocação de Dadá Maravilha, o que levou o técnico João Saldanha a rebater corajosamente: “ele escala o ministério dele, que a seleção escalo eu”. João Saldanha mais tarde foi demitido, dizem, como ato de retaliação de Médici

Um sopro de esperança contra a ditadura militar nasceu dentro do grandioso clube do Corinthians. Atento ao cenário da época, quando a Ditadura Militar começava a perder força, o sociólogo Adilson Monteiro Alves decidiu que um movimento a favor do voto popular e da democracia deveria começar dentro do Parque São Jorge. E ao lado dos craques, Sócrates, Casagrande e Wladimir, iniciaram o movimento chamado Democracia Corinthiana. O nome foi criado pela lenda da publicidade brasileira, Washington Olivetto, que estampou frases de efeito nas camisas do time, com mensagens pedindo o restabelecimento das eleições e a volta da democracia no país. A democracia Corinthiana apoiou e vestiu a camisa da campanha das ‘Diretas Já’, idealizada por Dante de Oliveira. 

Também em plena ditadura, o ex-presidente do Flamengo Márcio Braga, ao candidatar-se anunciou na imprensa que a democracia brasileira começaria com eleições livres, sem interferência da diretoria do Flamengo. Novamente o presidente Médici tenta interferir, mas Márcio Braga venceu o candidato apoiado pelo presidente.

Pelo mundo afora, políticos populistas como o italiano Silvio Berlusconi, acreditaram na conexão entre política e futebol, como uma forma de legitimar a entrada dele na política e adotou como estratégia de campanha o lema de fazer com que os italianos falassem de política tanto quanto eles falavam sobre futebol.

Recentemente, no conflituoso momento pós-eleições, quando os manifestantes conservadores trancaram a Rodovia Presidente Dutra, no Rio de Janeiro, pedindo intervenção militar no país, foi a destemida torcida organizada do Corinthians que desobstruiu a estrada. Em São Paulo, a torcida liberou a marginal Tietê e levantou faixas com frases em favor da democracia brasileira.

Na prática da política e do futebol se leva em conta a preparação. Anos talhando, o político, o discurso e o jogador, o preparo físico e ambos, trabalhando suas habilidades. A política é coletiva, o futebol também. O time tem que estar coeso e em ambos os casos, há adversários, igualmente constituídos, treinados, almejando a mesma posição. Alguém vai perder e muito raramente perde quem deu o seu melhor!

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