Não seja um mau perdedor

Há uma realidade que não pode ser ignorada. Nenhuma manifestação violenta, vigílias bizarras de pessoas com celular na cabeça e lanterna ligada para enviar sinais para extraterrestres, marchas nas frentes dos quartéis, pneus ardendo em chamas para bloquear estradas, teria acontecido se o presidente Bolsonaro não fosse um mau perdedor. O fato de haver sumido, ter deixado passar tão longo tempo sem uma palavra sequer aos seus eleitores, sem declarar aceitar o resultado soberano das urnas, mostra o quão pouco ele se importa com a governabilidade do país, com o movimento conservador, patriotismo, com a política e com seus eleitores.

  As manifestações violentas e antidemocráticas não teriam acontecido se o presidente Bolsonaro tivesse vislumbrado o tamanho da força que teria para comandar a oposição no país. Mas conscientemente escolheu o silêncio perigoso como senha para demonstrar sua crença nessas teorias da conspiração. Ele é, por isso, moralmente responsável pelos dias de caos e violência que vivemos. Deixando claro para os que se fizeram de desentendidos, que violência não é apenas um ato que deixa mortos e feridos.

Bolsonaro perdeu uma eleição que vários institutos de pesquisa anunciaram que ele perderia, não foi uma surpresa, não deu zebra. Perdeu para um ex-presidente da República que deixou o governo, após dois mandatos com índice de aprovação altíssima, superior a 80%, sem contar que o cidadão Bolsonaro, extremista, indisciplinado e rude foi um adversário potente contra o Presidente Bolsonaro, que tentou a reeleição. Perdeu e espelhou-se em Donald Trump! Ele e seus seguidores desafiaram os resultados de maneira semelhante a Trump e seus partidários republicanos após a eleição presidencial de 2020 nos EUA. Igualmente argumentaram, sem provas reais, que a eleição havia sido fraudada por todos os tipos de métodos, desde a fraude cibernética, até a falha no número de patrimônio das urnas. 

O jornal americano The New York Times, logo após as eleições brasileiras, publicou um artigo dizendo que o que acontece em Washington nem sempre fica em Washington, que Trump deixou como legado, um manual sobre como envenenar a política com desinformação, mentiras e tentar desacreditar os resultados eleitorais e as transições pacíficas de poder e o manual está sendo exportado e implantado além dos Estados Unidos e se tornando uma ameaça transnacional à democracia.

Disse ainda que os métodos de Trump foram rigorosamente adotados no Brasil por Jair Bolsonaro, que divulgou notícias falsas, desinformação durante sua presidência, semeou desconfiança no sistema eleitoral nos últimos anos e, por último tentou desacreditar o processo eleitoral depois de perder a eleição para Lula no mês passado. Os métodos de Trump foram repetidos na Colômbia nas eleições de maio, quando o candidato da direita radical inspirado no ex-presidente americano perdeu à eleição e contestou a contagem de votos. Como aconteceu nos EUA, a sustentação frágil da denúncia deu em nada. O presidente eleito, Gustavo Petro tomou posse em 7 de agosto.

Até o momento Bolsonaro não reconheceu a derrota, não cumprimentou o vencedor, não seguiu nenhum rito, rasgou o protocolo. Insiste e aposta na tese mal ajambrada que a eleição foi roubada em vários estados, no segundo turno e apenas nas urnas que ele teve menor votação. Ao cair na toca do coelho das teorias da conspiração de Trump, Bolsonaro sabotou o próprio final do mandato, delegou responsabilidades inerentes ao seu cargo de presidente nas semanas que não foi trabalhar. Agarrou-se ao seu partido, PL, para assumir a peça jurídica da anulação de parte dos votos do segundo turno, como resposta, o partido levou uma multa salgadíssima do Tribunal Superior Eleitoral por haver acionado a justiça de forma irresponsável (litigância de má-fé).

Parafraseando o ministro Barroso, diria que eu humanamente perdi a paciência!

Filme, reflexões e políticos escurecendo a pele

O filme Pantera Negra: Wakanda para sempre, indicado ao Oscar de melhor filme, arrecadou cerca de US$ 300 milhões nos cinemas no primeiro final de semana da estreia, a maior soma de todos os tempos para uma estreia de filme em novembro. Os espectadores são levados de volta à fictícia Wakanda através dos desafios que a protagonista, a princesa Shuri, enfrenta após a morte de seu irmão, o Rei T’Challa, que foi interpretado pelo ator Chadwick Boseman que morreu de câncer em 2020, antes do início das gravações.

No primeiro filme e na sequência o elenco é majoritariamente negro. Pantera Negra trouxe para a telona a representatividade negra que muitos de nós sentíamos falta nas produções cinematográficas, principalmente pelo fato de expor positivamente a representatividade de homens e mulheres negros, além disso, as discussões são permeadas de contextualização política, social, racial, sobre diversidade e ancestralidade dos povos africanos.

Assista o filme, deixa-se envolver pela força e poder das mulheres negras, Shuri, rainha Ramonda, Okoye, Riri e Nakia, que comandam a batalha de Wakanda contra o mundo submerso governado por Namor, ciente que é um filme lúdico, com músicas africanas poderosas, não reflete a realidade nem a rotina de Hollywood ou da indústria cinematográfica, que não faz nada sem grandes pesquisas sobre produtos e tendências de comportamento.   

Políticos brasileiros descobriram quando ser negro é vantagem. O período eleitoral revelou um grande número de parlamentares que escureceram a pele movidos pela ganância de receberem recurso maior do Fundo Eleitoral. É inacreditável, mas uma pesquisa feita pelo site Brasil de Fato mostra que dos 135 deputados federais negros eleitos em outubro passado, 19% haviam declarado serem brancos na eleição anterior. Entre os políticos que mudaram a declaração de raça há figuras conhecidas como o vice-presidente Hamilton Mourão, que se elegeu senador pelo Rio Grande do Sul e o atual presidente da Câmara Federal, deputado Arthur Lira reeleito por Alagoas, que antes era branco e agora se declarou pardo. Uma vergonha! Não entendem uma palavra do que disse Zumbi do Palmares: “nascer negro é consequência, ser negro é consciência.”

Embora o Brasil siga sendo o país com maior número de negros fora da África, não falamos sobre racismo, preconceito, muito menos admitimos nutrir algum desses sentimentos. Empurramos a discussão para debaixo do tapete, para a próxima geração falar sobre isso. Na vida real, o racismo é crime e a Lei 7.716 tipifica os diversos casos de discriminação.

No mais, como disse a cantora Iza: “Não tem como ter saúde mental sendo negro. É difícil saber que podemos morrer só por ser quem somos. Mas óbvio que a fama me afastou disso” mas as estatísticas seguem cruéis. Um levantamento da Rede Observatórios de Segurança, aponta que a cada quatro horas um negro é morto pela polícia no Brasil. Das mais de 2.600 mortes em ações policiais em 2020, 82,7% das pessoas eram negras. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) aponta que, das quase 35 mil mortes de jovens entre 2016 e 2020 no Brasil, 80% eram de negros.

O estudo “Violência armada e racismo: o papel da arma de fogo na desigualdade racial”, do Instituto Sou da Paz, mostra que dos 30 mil assassinatos por agressão armada em 2020, 78% foram contra pessoas negras. Não seja condescendente com o racismo, tampouco seja tolerante com o racista.

Quando os iguais se juntam em uma realidade distópica

A ocasião e o contexto que a pessoa existe são assimilados à sua essência, aos valores que a pessoa preza e prega. E nos espaços onde os laços humanos foram substituídos por redes de relacionamento e os grupos se identificam por ações que os distinguem dos que estão fora de suas redes, são os iguais se juntando, ignorando que viver em sociedade é não ter controle sobre tudo e que as regras que orientam minhas ações são exatamente as mesmas que orientam as ações dos outros sobre mim.

Há muitas coisas acontecendo que são perturbadoras e expressam um movimento perigoso em que parte da sociedade está se envolvendo em situações delirantes e se tornando cada vez mais radical. Os iguais não querem se misturar, construíram uma realidade distópica, onde tudo está organizado de forma opressiva e invocam Deus para justificar os discursos de ódio, a exclusão e a vingança, mas quem leu a Bíblia conhece o principal mandamento de Deus, no livro de João 15:17 “este é o meu mandamento: amem-se uns aos outros,” ou em 1 João 4:20: “Se alguém afirmar: ‘Eu amo a Deus’, mas odiar seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê”.

Narro aqui pouquíssimos acontecimentos pesquisados na última semana para externar uma questão intrigante: a quantidade de pessoas que estão se expondo em solidariedade a um movimento onde falta humanidade, ética profissional e respeito às divergências.

Na cidade de Sinop, o diretor de uma escola particular demitiu um professor que criticou em suas redes sociais, o bloqueio das estradas no estado; uma empresária de Alta Floresta, em áudio escancara o preconceito, a xenofobia e crueldade ao dizer que já verificou como foi a votação dos funcionários e vai demitir um a um dos que votaram no candidato adversário ao dela, proferindo um discurso carregado de ódio, inclusive contra Deus, a quem ela acusa de tê-la abandonado depois de tantas orações fervorosas, de joelhos e promete que não mais o louvará. Ainda, no inconcebível áudio, a empresária ameaça separar-se do marido se este, ainda que por trabalho, pisar em terra nordestina. Ah, o Nordeste não perde muito!

O que dizer do áudio do médico sul-matogrossense, que causou pânico em mais de 10 mil eleitores, onde ele, carregado de ódio e desprezo disse: “quem votou no Lula e chegar morrendo no hospital, vai morrer. Porque eu não vou ajudar”. O doutor é diretor clínico do Hospital Regional de Nova Andradina e literalmente cuspiu no juramento de Hipócrates. “A saúde do meu doente será a minha primeira preocupação”.

Em Cuiabá, vários empresários estão sendo expostos numa “lista negra” intitulada ‘Empresas cujos donos são petistas’, com indicação de que suas empresas devem ser boicotadas pela classe empresarial e por clientes partidários do candidato que perdeu as eleições.

Aconteceu com o Restaurante Le Farine e sua proprietária tornou pública sua indignação, desacataram familiar do proprietário do tradicional Chopão. Também citado na lista, o médico, Dr. Michel Patrick emitiu nota repudiando veementemente a exposição a qual fora submetido, registrou boletim de ocorrência para que o covarde autor/a da nota seja identificado e responsabilizado criminalmente.

Li mensagens de mães ensinando filhos pequenos a excluir e se afastar do convívio de colegas, cujos pais sejam de “esquerda” e ouvi o áudio da inescrupulosa professora desligando alunos “de esquerda” do grupo de orientação no mestrado, por mensagem de WhatsApp, que aliás, é a forma única de comunicação válida que esses tipos conhecem.  

Fechar o comércio, acampar, orar, fazer churrasco na frente aos quartéis, grudar na frente de caminhões, dar berros e sair marchando, cantar o hino nacional 10 vezes ao dia, são direitos inquestionáveis, cada um com a porção de loucura que lhe é inerente, todavia, não é sinal de progresso observarmos que onde antes havia acampamentos das pessoas amontoados debaixo de lona preta, reclamando um lote de terra, vê-se tendas climatizadas, pagas por certo com dinheiro de grandes empresários, dos quais muitos gozam do benefício da renúncia fiscal ou algo que o valha para abrigar um grupo de pessoas birrentas, egocêntricas, que se nutrem de notícias falsas e não suportam o fato de suas vontades não terem prevalecido nas urnas.

Vitória da democracia no Brasil que sai das urnas

Em um documento de 26 páginas, a Missão de Observação Internacional da Organização dos Estados Americanos, composta no segundo turno por 56 integrantes de 17 nacionalidades, enfatiza que o sistema eleitoral brasileiro tem evoluído de forma sólida e correta e diz que o enfrentamento e combate a disseminação massiva de informações falsas foi certamente, o desafio mais complexo do sistema eleitoral brasileiro nessas eleições.

Desmontando a polarização estendida às regiões brasileiras, de que o Sul Sudeste e Centro Oeste são de Bolsonaro, Norte e Nordeste de Lula, observamos que a maior vitória proporcional de Bolsonaro foi na cidade de Pacaraima, em Roraima, de Lula foi na cidade mineira de Itutinga. Além de Lula ter tido importantes vitórias na região sudeste, venceu na maior cidade do país, São Paulo e no estado de Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral. Sem desconsiderar, claro a vitória excepcional de Lula nas capitais, Salvador, Fortaleza e Teresina. O Presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, venceu em 8 das 20 cidades mais populosas do país. Dos 5.570 municípios brasileiros, Lula venceu em 3.123.

Vejamos alguns fatos interessantes que saíram das urnas mês passado. Um número expressivo de mulheres e negros foram eleitos e a Câmara dos Deputados terá entre os parlamentares 135 deputados federais pardos ou negros e  a bancada feminina na Câmara Federal aumentou 18%, terá 91 mulheres e terá pela primeira vez na história duas mulheres trans como deputadas federais: Erika Hilton, de São Paulo e Duda Salabert, de Minas Gerais.

Candidatas mulheres foram as mais votadas para a Câmara Federal em oito estados e no Distrito Federal e Mato Grosso também teria uma mulher como a candidata mais votada entre os oito deputados federais eleitos. Porém, Rosa Neide, do PT obteve mais de 124 mil votos mas a federação partidária na qual disputou a eleição não atingiu o quociente eleitoral exigido por lei para assegurar a vaga na Câmara Federal.

Pela primeira vez houve uma chapa formada por duas mulheres, as senadoras Simone Tebet e Mara Gabrilli. Simone Tebet, ao findar o primeiro turno, assumiu protagonismo inegável na campanha de Lula e se consolida como uma interessante liderança feminina nacional.

A eleição de 2022 é a primeira desde que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) passou a ter políticas afirmativas para pessoas pretas e pardas, possibilitando que as mesmas recebam maiores recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) e tenham privilégios também na distribuição do tempo de propaganda eleitoral gratuita.

Os estados da região norte e nordeste registraram e elegeram uma proporção maior de parlamentares negros. Em âmbito nacional percebe-se que houve maior registro de candidatos negros entre os partidos de direita e centro-direita e segundo o Observatório do Conhecimento, uma possível razão para o maior número de parlamentares autodeclarados negros dentro dos partidos de direita é que houve mudança na autodeclaração racial dos candidatos, com vista exatamente no aumento das cotas dos fundos eleitoral e partidário.

Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que o índice de renovação da Câmara Federal caiu muito. De 47.37% em 2018 para 39,38%. Mais da metade, 280 dos 513 deputados federais eleitos em 2018 conseguiram se reeleger. Em Mato Grosso houve certa oxigenação, apenas 3 conseguiram se reeleger. No senado Federal, o índice de renovação segue sendo muito bom, apenas 5 dos 13 senadores que tentaram a reeleição se elegeram, embora, tradicionalmente a Casa seja abrigo de políticos experientes e tradicionais, prova disso é que apenas um senador eleito nunca exerceu cargo público ou teve envolvimento com pleitos eleitorais.

Atuação irrepreensível, embora esbarrando em interpretações contrárias de alguns juristas, do Ministro Alexandre de Moraes, presidente do TSE. “Nós conseguimos concluir uma eleição extremamente polarizada e esta etapa importantíssima das Eleições de 2022 se encerra com a vitória da democracia, da sociedade, dos eleitores que compareceram”.

Pacificação e reconciliação

Tenho expressado aqui a minha preocupação com o ambiente hostil, com a campanha difamatória em andamento, com os ataques contínuos contra as instituições democráticas, atos de intimidação e ataques online e offline. O Brasil entra na reta final de sua temporada de campanha, com uma enxurrada de ameaças de morte motivadas pela política, agressões e até assassinatos e em todo o país há o medo de uma violência mais generalizada ainda após a eleição de hoje. Autoridades e analistas confirmam que nesta temporada eleitoral houve um aumento incomum nos ataques entre apoiadores dos candidatos.

Feliciano Guimarães, diretor acadêmico do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no Rio de Janeiro, falou sobre o recente aumento nos ataques. “Embora sempre tenha havido violência política perto das eleições, era muito fragmentada e mais sobre questões locais do que motivações nacionais. Mesmo que os piores temores não se concretizem, a eleição terá efeitos duradouros. A polarização política que temos no Brasil hoje e os ataques ativos às instituições são muito perigosos para o sistema político”.

Mas precisamos caçar jeito para falarmos sobre a pacificação do país, a reconciliação com amigos e familiares, dos quais nos afastamos, porque permitimos que divergências políticas adentrassem a esfera familiar. A reconciliação é a chave para o futuro de uma sociedade pacífica, justa, democrática e inclusiva.

A palavra “reconciliação” é frequentemente usada no discurso público. Somos um país com profundas raízes espirituais, os brasileiros dizem que a religião é importante para suas vidas, e, portanto, não surpreende que a reconciliação para muitos, esteja ligada ao perdão. Muitas tradições de fé entendem a reconciliação como um processo restaurativo recíproco, é importante reconhecer que a reconciliação não é uma atitude mas a combinação de processos que, em conjunto, conseguem abordar o passado, seguir, construir confiança, construir coesão social e criar paz sustentável.

No primeiro turno das eleições tivemos um cenário de vitória histórica para a diversidade. Duas mulheres indígenas e duas mulheres trans foram eleitas e certamente o foco dessas ativistas deve ser a transformação do Congresso em uma casa mais inclusiva que possa promover, avançar e implementar políticas favoráveis à proteção do meio ambiente e contenção do racismo e preconceito.

Dom Orlando Brandes, Arcebispo de Aparecida, nos deu uma receita singela para instalarmos aqui a pátria ideal: “para ser pátria amada não pode ser pátria armada. Para ser pátria amada, devemos ser uma república sem mentiras e sem fake news. Pátria amada sem corrupção, pátria amada com fraternidade”. Seguir nessa direção pode ser o começo.

No momento em que preparava para enviar esse artigo, a deputada Carla Zambelli, desequilibrada, sacava uma arma e apontava para uma pessoa em uma rua de São Paulo. Senti-me ingênua e tola, escrevendo sobre paz e reconciliação.

Sinais ameaçadoramente contemporâneos

Em uma semana estaremos votando no segundo turno da eleição presidencial. Sempre temos escolha: podemos deixar que as circunstâncias de nossas vidas nos endureçam e nos tornem cada vez mais ressentidos e temerosos, ou podemos deixar que elas nos abrandem e nos tornem mais tolerantes e gentis. Eu escolhi abri mão do voto secreto e me posicionei sem discutir, sem invadir a privacidade de nenhum amigo para criticar ou atacar e na mesma linha também não permiti invasão nas minhas páginas para me questionarem. O tempo todo dessa interminável campanha, eu fui civilizadamente fiel às minhas convicções e cuidadosa no trato com as pessoas. 

Para acalmar a incerteza e preencher lapsos de ignorância, recorri à leitura. De forma desordenada cronologicamente, ia de “As origens do totalitarismo”, de Hannah Arendt à Platão, que catalogou algumas formas de governo experimentados pela humanidade, até o best-seller dos cientistas políticos americanos, “Como as democracias morrem”. Assustada, assinalava as coincidências encontradas nos fragmentos de nossa democracia, que foram ficando pelo chão.

Ao ler o título do último capítulo de ‘As origens do totalitarismo’, parei e pensei: sim, é isso que estamos vivenciando: Ideologia e terror: uma nova forma de governo. Não temos um presidente governando a nação, temos um homem obcecado pelo estabelecimento de padrões morais, escorados na família tradicional, na fé e patriotismo cegos, independentemente de o governante, ele mesmo, ser um bom cristão, cultivar valores morais no seio da família. Nessa perspectiva, importante é incutir e pregar a moralidade como uma ideia central, mas ser, de fato, um cidadão moral, não vem ao caso. 

Bolsonaro teceu uma estratégia de investir fortemente no apelo cristão e messiânico, dando ‘evidências públicas de ser um bom cristão’, ao mesmo tempo em que reverbera o desprezo pelas minorias, pelos pobres, pelos que não são conservadores, então, tem pregado para seduzir e mobilizar sua base religiosa conservadora.

Uma implicação interessante na análise de Arendt é que o governante totalitário normalmente não é justo ou sábio; ele é simplesmente aquele que veio para quebrar conscientemente o consenso, colocar o pé na porta das instituições que regulam seu poder. Exatamente como aqui, agora, há uma grande massa disposta a renovar a compra de uma narrativa que os enfeitiçou quatro anos atrás e que transcende a compreensão de valor e de realidade. 

Embora as observações de Hannah Arendt, obviamente não podem explicar tudo sobre os complexos desenvolvimentos políticos de hoje, não deixam de ser reveladoras, pois fornecem informações sobre os mecanismos que permitem que tantas pessoas aceitem prontamente viver de mentiras. “Num mundo incompreensível e em perpétua mudança, as massas haviam chegado a um ponto em que, ao mesmo tempo, acreditavam em tudo e em nada, julgavam que tudo era possível e que nada era verdadeiro”.

A sociedade vigiada de 1984 e 2022

Um livro que se conecta aos dias de hoje é 1984, escrito por George Orwell em 1949, um livro para ser lido ou relido em tempos difíceis. É um livro que merece uma leitura atenta especialmente pela maneira como captura muitas tendências políticas preocupantes ainda em uso nas sociedades atrasadas.

É um romance perturbador sobre um governo poderoso, que criou um sistema de monitoramento através das teletelas instaladas por toda parte, para que o Grande Irmão, o estado, pudesse controlar e vigiar as atitudes e pensamentos das pessoas 24 horas por dia, promovendo programação de lavagem cerebral e punição diante de qualquer tentativa de criticar, sonhar, romantizar a vida ou fazer uso dos talentos inatos.

Paralelos, contradições e analogias feitas para mostrar que tal poder não reside somente nos governos, embora não possa florescer sem a concordância destes. No ano de 2022 vivemos felizes e colaborativos numa sociedade vigiada por milhares de agentes do Grande Irmão, que bisbilhotam nossas vidas sem grande dificuldade, porque nós mesmos projetamos nas mídias sociais imagens detalhadas de nossas rotinas, antecipamos nossos sonhos e demonstramos a predileção política, sob a pena de sermos alvos da pressão da invasão de propaganda, das tentativas de manipulação e um bombardeio de fake news que favorecem os planos do  grande senhor, de sustentar e prolongar o poder do estado que criou para si e para os seus.

Winston, o personagem principal do livro era funcionário de um Departamento do Ministério da Verdade, encarregado de falsificar os registros históricos, para que constem apenas fatos que expressem apoio ao governo e, secretamente acumulava revolta contra o grande irmão e desafiou toda engrenagem de vigilância e alienação.

Em 2022 muitos questionam a agressividade, o preconceito do grande líder e se movem esperançosamente em direção à libertação, independente da grande massa que não se preocupa em questionar, analisar criticamente os atos e palavras pronunciadas pelo grande irmão. Outros, negociaram o direito inalienável de pensar livremente pelo discurso hipócrita de defesa da tradicional família perfeita e pela fé, que nem deveria estar incluída nas coisas do estado.

No livro 1984, escrito há 72 anos, George Orwell faz um importante alerta sobre a perda da liberdade e da democracia quando o estado, através de seu aparato de intimidação e vasto exército de fanáticos atuam como transportadores de informações e como auxiliares de vigilância, em 2022, fazendo uso da farta tecnologia disponíveis nos smartphones, os intolerantes invadem a caixa de mensagem das pessoas para profetizar a continuação do poder do mito, o grande senhor que governa acima de tudo e de todos.

Em 1984, o estado faz uso de seu vasto império de vigilância para manter a ordem, em 2022, contrariando o ensinamento do livro, o grande irmão brasileiro armou a população civil e incitou a quebra da ordem com invasão de instituições.

Em 1984, o governo constantemente apaga e reescreve a história que se tornou inconveniente, permitindo limpar a memória e continuar vivendo sem o peso das suas transgressões e em 2022 isso não mudou. Declarações graves dadas e atos polêmicos são desmentidos, mascarados ou sutilmente justificados e no momento conveniente, de olho no voto, o grande irmão vem a público, com as veias do pescoço saltadas pelo esforço e se desculpa.

A polarização não parece ser uma manifestação efêmera

Em 2017, o historiador e escritor polonês, Karol Modzelewski, figura proeminente do movimento Solidariedade da Polônia, observou: “Agora existem duas Polônias. Recebemos as mesmas notícias mas não lemos os eventos da mesma maneira. Também não temos os mesmos valores. É como se estivéssemos perdendo nossa linguagem comum. Já não ouvimos uns aos outros e já não falamos uns com os outros. Pior, não queremos mais falar um com o outro”.

Um novo estudo sobre polarização política liderado por cientistas políticos da centenária Brown University, fundada em 1794 nos Estados Unidos mostrou que a polarização – percepções ideologicamente distorcidas da mesma realidade – é mais forte em pessoas com menor tolerância à incerteza em estágios gerais da vida. Isso estabelece que parte da animosidade e mal-entendido que vemos na sociedade não se deve a diferenças irreconciliáveis ​​em crenças apenas políticas, mas depende do grau de incerteza que as pessoas experimentam na vida cotidiana.

As interpretações dos fatos carregados de ideologia distorcida trouxeram consequência terrível para nosso mundo político. Grupos políticos tornaram-se ideologicamente mais homogêneos, distintos e desconfiados das pessoas que seguem do outro lado e as imagens dos apoiadores tornaram-se ridiculamente estereotipadas, para seguir, agradar e mostrar identificação cega com o líder.

Esse recrudescimento ideológico foi trazido para dentro dos lares, para os estilos de vida em sociedade. A diversidade de convivência mingou. Não estamos mais falando apenas de uma política polarizada, mas de uma sociedade dividida onde liberais, progressistas e conservadores cada vez mais se segregam. As pessoas intolerantes e preconceituosas estão mais confortáveis para deixarem escapar ‘suas verdades’, como o pronunciamento gravado da advogada mineira ridicularizando os nordestinos. Todo mal extravasado no discurso sempre existiu na mente da advogada, o momento polarizado a deixou confiante para se expressar.

Não é um bom sinal para a democracia quando as pessoas começam a usar a política para justificar todos os ângulos da vida. O pluralismo político pressupõe que os indivíduos e seus padrões de relacionamento determinam suas lealdades políticas, mas com a política partidária em segundo plano, organizando interesses e identidades, mas não ditando a vida cotidiana e as relações sociais.

Em contraste, quando o partidarismo ideológico assume o controle e afeta substancialmente as relações sociais que as pessoas expressam em público, a polarização partidária se torna esse processo descontrolado, que estamos vivenciando.

É cedo para entender se a atual onda de polarização vai remodelar permanentemente o cenário político e social do Brasil, ou se, ao contrário, é uma  paixão, que em breve vai passar.

O jogo tem que ser limpo, quem ganhar, leva

Neste momento uma das maiores democracias do mundo está realizando o que muitos descrevem como a eleição presidencial mais importante e dramática dos últimos anos, como admitiu o ex-assessor de Trump Steve Bannon em entrevista a uma emissora inglesa. Os jornais mais importantes do Brasil e do mundo também tratam essa eleição, como a mais importante desde a redemocratização do país.

À medida que a apuração dos votos se aproxima, meu medo é que Bolsonaro permaneça no poder, usando um segundo mandato para minar de forma efetiva as instituições que sustentam nossa democracia. O destino da democracia do Brasil e das relações dos outros países com o Brasil será decidido nessas eleições, asseguram senadores democratas americanos, demonstrando grande interesse na eleição e preocupação quanto as declarações do presidente Bolsonaro quanto a desconfiança no sistema eleitoral e se ele vai acatar pacificamente o resultado das urnas.                                                            

O desprezo de Bolsonaro pela democracia está bem documentado. Em mais de uma ocasião, ele afirmou que só deixaria a presidência “morto, preso ou vitorioso e nunca serei preso”. Embora nunca tenha registrado percentual maior que 35% nas pesquisas, Bolsonaro repete que se obtiver menos de 60% dos votos, é porque algo anormal aconteceu.

São falas desconexas de um presidente que passou a maior parte do seu governo atropelando todas as regras do estado brasileiro, por puro desdém pelas instituições, enquanto sua política econômica empurrou 33 milhões de brasileiros para a pobreza, para a fome, os abalos também foram sentidos nos cortes erráticos em áreas sagradas que abrigavam o pensamento crítico; as universidades, onde o corte de orçamento foi justificado por ser uma área de foco contínuo do comunismo.

Todo ódio e descaso destilados ao longo desses intermináveis quatro anos deixaram fissuras profundas mais de 660 mil famílias brasileiras atingidas pela pandemia, que viram pela televisão seu presidente imitar pacientes morrendo com falta de ar. Bolsonaro fez inimigos políticos, armou a população civil como se estivesse formando um exército particular, porque percebeu que os militares brasileiros devolveram o poder aos civis, depois de 21 anos do golpe, assegurando que haviam cumprido  a missão de pacificar o país e preservar a democracia, portanto não há sinais eminentes da possibilidade de golpe.

 O Alto Comando do Exército inclusive assegura que em suas reuniões não se tem tratado de assuntos de natureza política e todos os 16 generais da cúpula indicaram que vão reconhecer com tranquilidade o resultado das urnas.

Como diz o narrador na nova campanha do TSE “Paz nas Eleições”: “O jogo tem que ser limpo, tanto no futebol quanto na política, adversário não é inimigo e uma eleição em clima amistoso é vitória da democracia”. 

O limite do intolerável

A forte divisão política que antecede a eleição do próximo domingo no Brasil tem sido retratada nos noticiários internacionais como uma batalha pelo futuro da democracia na maior nação da América do Sul e muitos analistas temem que aqui possa acontecer cenas idênticas da barbárie que ocorreu nos Estados Unidos em 6 de janeiro de 2021, quando o presidente Biden venceu as eleições e Donald Trump colocou em dúvida o mesmo sistema eleitoral, que o havia elegido e incitou um gigantesco quebra-quebra no Capitólio. Coincidentemente o presidente Bolsonaro tenta deslegitimar o sistema eleitoral que o elegeu deputado federal 7 vezes consecutivas e elegeu também seus três filhos.

Bolsonaro que foi esfaqueado em um comício em Juiz de Fora (MG), em setembro de 2018, não aprendeu nada com a violência que sofreu. Alertado sobre os excessos de suas falas e exemplos o presidente tem minimizado o problema e se eximido de qualquer culpa ou incitação à violência, até mesmo diante das imagens recentes do excelentíssimo empunhando uma câmara fotográfica como se fosse uma arma e disparado: ‘vamos fuzilar a petralhada’. Cenas e palavras de apologia à tortura e violência tem sido constante ao longo do mandato.

A violência política é esse descalabro que tem início na intolerância às diferenças, que tem levado milhares de pessoas a experimentar uma sensação absurda de insegurança para se expressar politicamente.

O Datafolha, em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública realizaram uma pesquisa que mostra que 67% da população brasileira está refém do medo da violência política e que, em apenas um mês 3,2% dos entrevistados relataram terem sido vítimas de ameaças por causa de suas convicções partidárias. A ameaça à democracia tem início nesse medo das pessoas de se posicionar, nesse silencio imposto pela divulgação de inúmeros casos de agressões e até mortes provocadas por desentendimento político.

Sabemos que numa democracia saudável se vive num estado que garante a todos os cidadãos a liberdade de se manifestarem e a democracia é o único regime que permite um ambiente de debate respeitoso. O que estamos vendo no país são cenas de irracionalidade, como um carro atravessando uma manifestação pacífica de adversários; o próprio mandatário do país, em reação irada, ao vivo num debate ataca uma jornalista, não se desculpa e abre precedente para um parlamentar aliado ameaçar a jornalista num outro momento. A violência política tem várias caras, várias formas de atingir, de tentar diminuir o oponente, como o caso ocorrido essa semana em Feira de Santana, (BA), onde um candidato a deputado federal teve a fachada de sua casa pichada com a frase racista ‘fique na senzala’; um senhor de Camboriú, (SC) foi morto a socos e pontapés por um jovem de 44 anos após discutirem sobre política em local público, cenas registradas juntadas ao Boletim de Ocorrência.

Até o juiz federal Renato Borelli, responsável pelo mandado de prisão do ex-ministro da Educação de Bolsonaro, denunciou que sofreu ameaças de perfis ligados a grupos de apoio ao presidente. O juiz teve o carro atingido por fezes e ovos, além de uma pedrada. O Conselho Nacional de Justiça recomendou que a Justiça Federal providencie medidas para sua proteção. A Polícia Federal está investigando os perfis dos valentões, até para saber se são homens reais ou se escondem atrás de robôs.

Não, não são dias fáceis, considerando que o número de casos de violência ocorridos devido a intolerância política pode ser imensamente maior do que os relatados na imprensa. A grande maioria dos casos não devem ter sidos notificados, mais um sinal da banalização da violência, num país armado até os dentes. De 2018 a 2022 o número de armas registradas subiu 473% e de acordo com o Anuário de Segurança Pública, 4,4 milhões de armas estão nas mãos de particulares, dos cidadãos do bem que se exaltam à menor contrariedade.

Como não ter medo?