A raiva da quarentena

As emoções estão à flor da pele na medida em que o distanciamento social se estende e nossas liberdades permanecem restritas. Esta crise está testando nossa paciência e sensibilidade diante de circunstância dramaticamente excepcional. Algumas emoções elevam-se nas cabeças das pessoas, como por exemplo, a raiva.

Raiva pelo vírus, governo, mídia e, raiva pela injustiça quando a maioria das pessoas seguem as regras, geralmente com um custo pessoal enorme, e uma minoria não, incluindo algumas em posição de poder.

Muitos estão bravos com a forma como o governo federal está lidando com a pandemia. Mostram-se indiferentes e não se importam com quantas pessoas estão morrendo.

O surto da doença Covid-19 pode ser estressante para as pessoas. O medo e a ansiedade sobre uma doença desconhecida podem ser avassaladores e causar emoções fortes em adultos e crianças.

Como você responde ao surto pode depender do seu histórico, dos apegos e das particularidades que o diferenciam das outras pessoas. Mas, diante de uma pandemia global causada pelo vírus que não entendemos completamente, há muito fora de nosso controle, desde as ações de nossos vizinhos até o momento em que oficializarem uma vacina.

Pesquisas sugerem que pessoas forçadas a viver em quarentena enfrentam um risco maior de ansiedade, depressão, raiva, irritabilidade, insônia e sintomas de estresse pós-traumático. Quanto mais a quarentena dura, pior o seu impacto no bem-estar psicológico das pessoas.

Algumas pessoas se sentem mais estressados e angustiados quando sentem que a vida está fora de controle, outros convivem bem com isso. O quão desconfortável você está com a incerteza e o quão desesperadamente precisa retomar o controle de sua vida pós coronavírus, pode depender de sua personalidade, porém, em alguma medida, não há dúvida de que as medidas restritivas de ficar em casa têm sido bastante complicadas para todas as pessoas, entretanto, controlar o vírus deve vir primeiro lugar.

E assim, junto com o sofrimento e a ansiedade, a perda do que tínhamos no passado e o medo pelo futuro, há outra grande emoção que está se espalhando: Não sabemos quanto tempo isso vai durar.

Praticamente todo comércio reabre esta semana. Mas isso não significa abrir guarda com relação aos cuidados de higiene e a recomendação de distanciamento social. A vida segue, com restrições.

Quando retornarmos ao estágio normal de vida

Segundo observação da ONU esta é uma crise de saúde global, diferente de tudo o que se viu em 75 anos de história das Nações Unidas.

Desde o estabelecimento da pandemia do Coronavírus, há um sentimento quase geral de que o mundo está vivendo um momento crucial e nada será como antes. As ponderações realísticas voltam ao estado forte, a ascensão do nacionalismo, o decréscimo na crença da governança global, o que significa, uma leve retração no processo de globalização. Durante o período da pandemia, os governadores e prefeitos se responsabilizaram em liderar a luta contra o vírus e assim, expandiram suas autoridades na esfera mais sensível da vida dos cidadãos.

Ainda bem, né? Porque o governo federal optou por não encarar os fatos, por tapar os olhos aos mil mortos por dia no Brasil. Numa reunião de quase três horas de duração entre o Presidente da República e seus ministros, as palavras “Coronavírus e Covid-19” apenas foram mencionadas fora do contexto do momento caótico que estamos vivendo para sinalizar que é a hora propícia de distração da mídia para avançar, às escuras, na flexibilização das leis ambientais.

Estamos sós, trançados no medo de que o amanhã não chegue e ainda assim,  temos ouvido vozes positivas dizendo que quando a crise da Covid-19 passar, ou pelo menos quando nos permitir retornar ao estágio normal da vida, teremos grandes mudanças, cooperação global e melhor preparação para a próxima pandemia. Acreditam que as pessoas experimentarão mudanças pessoais também, serão talvez mais tolerantes, mais amorosas e desprendidas em relação ao valor dado às coisas materiais. Não custa crer que ressurgiremos mais fortes num mundo de valores novos porque não existe lado bom nessa crise. Mesmo se morresse uma pessoa por dia de Covid-19 já seria inaceitável.

Esta crise está testando nossa paciência e sensibilidade diante de circunstância dramaticamente excepcional.

Não faz bem sermos obsessivos em acompanhar as notícias, sobretudo porque o vírus foi politizado. Esta crise está se desdobrando lentamente e não temos que ficar presos a ela, minuto-a-minuto, tampouco mover-nos em preocupação com o retorno às aulas, a realização ou não do ENEN, das eleições municipais e outras pautas que podem esperar. Não há quem saiba como as coisas acontecerão na próxima semana.

Para a maioria este é um tempo depressivo, incerto, com elevado grau de ansiedade. Alguns estão isolados, outros sentem a pressão de estarem mantendo convivência de risco no trabalho o dia todo e há os que perderam o trabalho e a esperança.

Cada pequena mudança em nosso estilo de vida pode ser surpreendentemente difícil, isso serve para todo mundo. Para usar uma metáfora, você pode não ser capaz de determinar quais são os obstáculos internos que você enfrentará mas você pode se tornar mais forte mentalmente para enfrenta-los.

Entre o bem e o mal, para a maioria de nós, é um pouco dos dois lados, dependendo do dia. Por ora, basta afugentar o medo e o pânico que tornaram virais desde o início da crise meses atrás. Preocupações habituais são pensamentos familiares e o que importa é que apesar das preocupações com a vida pós pandemia, você esteja seguro e bem cuidado.

Não há nada certo além da incerteza

Aos poucos vamos recobrando a esperança de retornar aos dias alegres, sem a ameaça avassaladora da Covid-19. O medo, no caso, foi salutar, porque nos fez ter consciência dos perigos e nos obrigou a um refletido recolhimento e parada. Desde os primórdios, a humanidade não teria progredido sem o medo que a alertou dos perigos sucessivos que se apresentavam nos caminhos. Se fizermos um recorte da história, observaremos que as comunidades humanas sempre viveram sob fortes ameaças, de epidemias, tempestades, tremores de terra e guerras.

De todos esses males, os mais mortíferos eram as epidemias. De 1347 a 1350, a Peste Negra dizimou um terço da população europeia. Sem dúvida, as epidemias continuam nos assombrando; a Gripe Espanhola, Ebola, AIDS, que já matou milhares de pessoas no Planeta, desde 1980 mas a guerra se tornou o perigo número um para a humanidade.

Hoje, o medo nos leva a criar muros, grades e distanciamentos, o medo de sair às ruas e estar exposto à pandemia.

O sociólogo, psicólogo e cientista político alemão, Ulrich Beck diz que vivemos num paradoxo, onde as instituições feitas para controlar o medo produzem exatamente o seu descontrole. São tantos os perigos, que o sociólogo se refere ao conceito, relativamente novo, de uma sociedade de risco, reforçada por nossas incertezas.

A análise de Beck sobre os riscos sociais diz que os riscos são objetos de distribuição, entretanto, acaba expondo falta de democratização dos riscos, pois embora, no caso do Coronavírus todos estejam sujeitos a contrair o vírus, as diferenças em recursos econômicos permitem aos que estão em vantagem financeira minimizarem os riscos de morte. (podem guardar a quarentena em casas confortáveis, não utilizam transporte público e não precisam aguardar vaga em UTI quando são diagnosticados positivos).

A civilização é vulnerável, dependemos de sistemas complexos para manter a vida e não somos poupados. Como disse Zygmunt Bauman, em sua síndrome de Titanic, temos medo de um colapso ou catástrofe que possa cair sobre todos nós, atingindo indistintamente. Temos medo do iceberg, espreitando em emboscada.

Não sei dimensionar o risco que corremos. Mas, claro, não é quantidade de risco que importa, mas a súbita impossibilidade de um controle total do mal que nos ameaça num mundo interconectado, mas com certa tendência ao descontrole. Vidas adormecidas e essa reviravolta destruiu ou empurrou para diante quase todas as prioridades.

Apesar de tudo, a mente de muitos rejeitou a tragédia. E talvez o mais incrível obstáculo para a prevenção da contaminação tenha sido a descrença dessa parcela da população. A maioria porém, constatou atônita que o apocalipse não aconteceu apenas na densa floresta tropical do Vietnam, como no épico filme Apocalipse now, de Francis Ford Coppola, estrelado por Marlon Brando. Desta vez, aconteceu em toda parte do planeta.

Escrevi “aconteceu”, numa referência espontânea ao passado. Tomara que esteja realmente passando. Há lugar para esperança!

A pandemia e o processo de globalização

O sociólogo Octavio Ianni ao discorrer sobre a sociedade mundial disse que o mundo é uma realidade social, complexa, difícil, impressionante, fascinante mas pouco conhecido. O mundo está abalado. Tudo o que parecia estável sofre transformação. Mesmo o que permanece, não é a mesma coisa.
Altera-se a forma como nos relacionamos. Fomos todos levados para um cenário novo, inesperado e assustador.

É como se a própria terra assumisse uma fisionomia distinta, com o horizonte da globalização a nos ameaçar, com o surgimento de um vírus impiedoso e global.

Quase todos os lugares foram alcançados, cada ponto do espaço na metrópole ou na pequena cidade e somente a minha e a sua casa é o que temos de proteção.
Sob muitos aspectos essa nova situação muda definitivamente nossa ideia de lugar, de espaço. Voltamo-nos para dentro de nós mesmos e num prazo de 30 dias estamos nos reconhecendo numa rotina sem dinamismo, carregada de preocupações.
Estamos todos sendo desafiados e levados por um caminho que muitos antes de nós trilharam ao vivenciarem outras epidemias e 2 grandes guerras.
Se tentares ir para outras terras, não acharás novas terras, esta epidemia há de seguir-te por onde andares.

A afirmação de que os seres humanos estão hoje em contato uns com os outros, em todo o mundo, como nunca na história, não tem controvérsia e isso diz respeito a globalização, processo em que os povos do mundo compartilham uma sociedade global dinâmica. A globalização ou globalismo não é um processo de comunhão simplesmente político-econômico, mas também social, cultural, compreendendo problemas que podem ir de ecológicos e religiosos a problemas de saúde pública. E eis que um surto globalizado abala nossas relações e nos impõe o distanciamento social.

O novo coronavírus está se transformando em um enorme teste de estresse para a globalização. À medida que as cadeias de suprimentos se rompem, as nações acumulam equipamentos de proteção, suprimentos e equipamentos médicos, limitam as viagens, vigiam as fronteiras. A crise está forçando uma grande reavaliação da economia global interconectada. A globalização promoveu uma profunda interdependência entre empresas e nações, que as torna mais vulneráveis ​​a choques inesperados. Agora, empresas e nações estão descobrindo o quanto são vulneráveis.

Mas a lição do novo coronavírus não é que a globalização falhou. A lição é que a globalização é frágil, apesar ou por causa de seus benefícios. Por décadas, os esforços incansáveis ​​de empresas individuais para eliminar a concorrência geraram riqueza sem precedentes.

Não é de surpreender que a epidemia do COVID-19 esteja sendo usada nas narrativas nacionalistas, como se vê aqui no Brasil. Para muitos as origens chinesas da doença simplesmente reafirmam a crença de que a China representa um perigo para o mundo e não se pode confiar que  se comporte de maneira responsável. Em um mundo inundado de desinformação, o COVID-19 está contribuindo para aumentar as conversas errôneas.

No âmbito destas configurações qualquer fato que ocorre em qualquer lugar do mundo, pode produzir efeitos imediatos em outros lugares. Cada vez mais pessoas experienciam viagens internacionais e casamentos transnacionais.
Quais lições tiraremos para vida depois que a vida se restabelecer normal? Modificarão os significados das fronteiras?

Medo da fome e da morte

Essa loucura que o mundo está passando é fato inusitado para todos, em todos os continentes. Não existe vacina tampouco medicamento certo para o tratamento, ninguém conhece a receita para lidar com esta gigantesca crise epidêmica e  ainda não há um modelo matemático para evitar o caos econômico. Devemos então, dentro desta realidade mundial exposta e complexa, renovar a  confiança na ciência e evitar causar mal coletivo com discursos imprudentes.

O século XXI demoniza nossas vidas, irremediavelmente! Há uma imensidão de  pessoas no mundo que vão viver essa epidemia, estão sendo contagiadas, desenvolvendo a doença e não tem prognostico de quando retomarão suas vidas. Mas todos indistintamente atravessaremos a tensão de nos saber cercados do vírus por todos os lados, com medo da transmissão em família, medo dos vizinhos, com pavor de supermercados e shoppings.

Fico indignada ao extremo ao saber de pessoas ficando sem tratamento adequado, pelo colapso inevitável do nosso sistema de saúde. Mas também é muita coisa junta num momento em que o interesse público tem que prevalecer: o país em pandemia, um presidente tresloucado.

Pode-se pensar tudo durante a longa duração do isolamento social, entretanto vale mesmo lançar o olhar para observar e compreender as relações entre a estrutura da sociedade. Recomenda-se “ninguém” ao lado, uns porém, estão largados, experimentando, em toda sua crueza, a pressão dos dias que se arrastam opacos.

A pandemia veio com envergadura global e aos poucos foi juntando os povos do mundo para compartilhar a mesma epidemia, os mesmos medos: de perder o emprego, de perder-se em dívidas, de perder a vida. A sociedade global, em parte colaborativa, em parte fechada na ignorância, espera que os testes de medicamentos sejam apresentados num tempo menor que a auto imunização propagada.

Bem meus caros, o sofrimento nos catapulta além da nossa zona de conforto, lança nossas vidas ordenadas no caos. Resta consolo lembrar que experiências de profunda tristeza podem se tornar oportunidades de transformação. Quando nossos alicerces e segurança são significativamente abalados por algo a princípio desconhecido, depois intratável, um espaço inesperado pode se abrir em nossos corações, dando-nos uma capacidade de amor e compaixão que nunca experimentamos antes.

 

 

Fazer descer a virtude do céu

Os sujeitos estão fragilizados. São cada vez mais os dedos que se queimam enquanto o calor das discussões e das as emoções são atiçadas.

A socióloga polonesa Elzbieta Tarkowska, citada algumas vezes por Zygmunt Bauman, diz que a indefinição e insatisfação que permeia nossas vidas, remete à ideia de caos porque estamos de certa forma vivendo um estado de coisas caracterizados pelo fluido, pela ausência de forma, a indeterminação, a indiferenciação, a total confusão.

No estado de caos a mudança é permanente, a situação parece aos que nela estão envolvidos obscura, ilegível e imprevisível. Entendo que o caos descrito por Tarkowska é um estado de coisas em que tudo pode acontecer, um estado em que a probabilidade de um certo acontecimento não é superior à de qualquer outro, ou ainda que fosse qualquer o caso, não poderíamos prevê-lo.  A existência caótica é desprovida de estrutura, de lógica; sem clara distribuição das probabilidades e a ausência de intervenção no desenrolar-se dos acontecimentos cotidianos.

As transgressões vão acontecendo, deixando brechas até que o absurdo se infiltra nas nossas vidas.

O confronto com o caos seria já por si só bastante perturbador e doloroso. Mas a novidade do fato é que cá estamos nós, absortos, indiferentes em meio a toda desorganização de nossas existências.

A ordem tão almejada pela modernidade existe, enquanto existir a desordem, porque as duas são faces da mesma moeda. As pessoas se adaptam facilmente à riqueza ostentada e à miséria interior exibida. Tudo está no palco do espetáculo. Catástrofes, crueldades, epidemias e outras tragédias figuram na ordem do dia.

No mundo contemporâneo o que conta é a habilidade de se mover, não importa se para frente ou para trás. Na vida pós-moderna não devemos deixar que a identidade se fixe.  Somos seres multi facetados.

O mundo em que vivemos está cada dia mais assustador, ambíguo, incontrolável, violento, instável. A vida política, inclusive foi atingida por uma evidente fase de desconsideração.

A ciência tem explorado a complexidade, o imprevisível e o inédito, evidencia-se que não há mais a busca obsessiva pela harmonia tão procurada na modernidade. Um caminho parece, claramente traçado, pelo menos no que se refere a observação geral. É o caminho da perda do sentido, do conformismo, da apatia e da repetição de formas vazias, disse Castoriades, filosofo greco/francês, quando escreveu sobre a ascensão da insignificância.

Embora haja uma exigência de novos objetivos políticos e de novas atitudes humanas, por seguir caminhos dignos, o que vejo são poucos sinais de que isto esteja acontecendo.

 

 

 

 

Um complexo poder

Há diferença assustadora de intensidade entre ver, ouvir, falar e observar e calar.
Passei um ano inteiro exercitando o silêncio, aprendendo a conter a inesperada
vontade de me expor, de expor meus pontos de vistas, de elogiar ou criticar a classe
política, de demonstrar afinidade ou oposição. Não foram poucas as contrariedades, a
oposição silenciosa à muitos projetos do governo federal, não foram poucas as
oportunidades de romper e voltar a expressar-me livremente, mas fiquei tentada a
experimentar a situação nova, a exercitar novas possibilidades interiores. Então, deixei
o tempo passar consciente de que valorizaria e jamais apagaria as experiências
valorosas vivenciadas, mas as usaria a favor do amadurecimento e crescimento
profissional.
Um ano dedicada a um projeto que teve dificuldades desde seu início, um projeto que
mereceu acompanhamento e preocupação o tempo todo. Mas é importante trabalhar
com determinação, lealdade e metas em todas as circunstâncias.
O ambiente político é rico em jogos, subterfúgios, poder e perdas e em Brasília, talvez,
esse panorama seja mais visível e fácil de ser contemplado do que em qualquer outro
lugar. Ali, nos corredores do Senado, poucos sorrisos, passos apressados refletem
tanto a indiferença dos senadores que não gostam de ser parados quanto a vaidade
dos que puxam atrás de si um cordão de assessores, tão vaidosos quanto o
parlamentar.
Mas ali é o lugar onde os ritos que sustentam a república são diariamente exercitados,
seguindo normas regimentais dúbias e antigas, burladas frequentemente para
favorecer grupos influentes na casa. Ali, as disputas diárias são várias, nas comissões,
nas CPIs, no plenário. Todos querem aparecer bem na foto que será a manchete do
dia. Uma equipe grande se desdobra no atendimento político, na assessoria de
imprensa, assessoria parlamentar e tantos outros setores. Ali, o jogo tem quer jogado
em time, não há muito espaço para arrancadas individuais.
O Senado, que eu achei sisudo e burocrático é ao mesmo tempo uma grande tela,
onde se vê ao vivo a história sendo contada. Um complexo poder da república, dotado
de mil possibilidades e flexibilidades para que tudo, absolutamente tudo, seja possível
fazer e/ou desfazer, dentro da imutável lentidão entre discussões, votações e sanções.
Na composição da Casa, a paridade na representação dos estados é um ponto
destacado. Tem-se realmente a impressão que a geografia não importa tanto. O
presidente veio de um estado pequeno, o Amapá e tem voz sobre os senadores de
estados grandes e importantes.

Ali, as crises são vivenciadas no âmago de suas explosões e depois os senadores
fazem cara de paisagem como se nada tivesse ocorrido; as emendas parlamentares
são pagas como moeda de troca em votações de assuntos de interesse do governo,
como sempre foi e exatamente como acontece nos estados. Mas ali tudo acontece
com certa suntuosidade.
O Senado tem público de visitação pequeno, são grandes empresários, embaixadores,
ministros, técnicos, executivos e políticos tradicionais que postulam indicação para
grandes cargos nos órgãos federais. Não se compara ao calor da Câmara dos
Deputados onde os corredores são ocupados por manifestantes, ministros, prefeitos e
vereadores de todo o Brasil.
A excepcionalidade está na moldura de grandeza que se dá ao cargo, tanto que,
vislumbrando uma eleição extemporânea para o cargo, por conta da cassação do
mandato da Senadora Selma Arruda, quase 20 nomes são citados como possíveis
candidatos.
Diria que o eleitor deve atentar-se a não comparar currículos de pretensos candidatos
como se estivesse contratando um funcionário. A grandeza da casa exige bem mais
do que isso!

Enxergamos aquilo que reforça nossas convicções

Cidadãos querem ser candidatos para reforçarem suas convicções políticas, o
pregador aborda o fiel baseado em suas convicções religiosas, a família educa de
acordo com suas convicções morais. A vida porém, é mais saudável num espaço de
múltiplas visões e conflitos.
Temos testemunhado a ascensão do radicalismo por todos os lados e a raiva e
polarização são as forças vitais de qualquer movimento radical. Estou sentindo as
possibilidades de diálogo cada vez mais reduzidas, a capacidade de entendimento cada
vez menos praticada, já nem mesmo tentada. Nos diálogos já não se tenta convencer,
apenas marcar divergência.
O tom em que esses ideais são proferidos me irrita infinitamente. Onde quer que
estejamos estamos construindo muros de ideais, ideologias, intolerância e não
estamos bem intencionados quando propomos diálogo. Diálogo, em tese seria
submeter minhas próprias ideias à sua experiência, sem leva-la em consideração.
Sempre queremos ser vistos como certos, sempre certos. Mas como viver a certeza
diante do pluralismo, que mais remete a tolerância e ao encorajamento de lançar-se à
perspectivas conflitantes? Será necessário aflorar muito mais do que um ajuste
ideológico para cultivarmos a coragem necessária para não erguermos cercas entre o
que pensamos e o que pensa o outro. Precisamos educar nossos corações para o
convício e tolerância.
A sociedade está marcada pela ansiedade, reina uma inabilidade de experimentar
profundamente o que nos chega, o que importa é poder descrever aos demais o que
se está fazendo, reforçar as convicções exibicionistas. Entre nossas exibições e dos
outros, há um contexto a ser explorado, diferenças econômicas e sociais gritantes,
cenários e expressões que são reflexos das realidades individuais.
É fundamental notar que nem toda realidade compartilhada é objetiva. A subjetividade
eleva os níveis da realidade que revelamos. As convicções são geradas e reforçadas
nem sempre com base em valores do conhecimento, mas permeadas pela vaidade e
pelo desmerecimento do que é o outro. Uma das razões, pelas quais se atribui
relevância e valores a objetos, como casas, roupas e carros. Estes, passam a ter
importância porque reforçam e refletem parte do que somos; a superficialidade.
Objetos reforçam convicções. Objetos dão significados a realidade. E assim, o que
temos e a forma como percebemos as coisas em nossas mentes, se tornam nossas
verdades. Sem dar ouvidos, sem perceber o outro, sem adentrar no mundo do outro,
sem sorver conhecimento numa fonte diferente. Não ser capaz de conviver com
realidade, ideais e ideologias diferentes é o que tem nos tornado arredios, arrogantes
ou ignorantes.
Baseada em suas convicções esdrúxulas, ignorando a relevância da cultura e da
leitura, a Secretária de Educação do Estado de Rondônia listou nada menos que 43
obras clássicas da literatura brasileira e as baniu das escolas públicas, por considerar,
segundo o estreitamento de sua visão sobre a educação, que os livros contém
conteúdos inadequados. Entre os autores estão Mário de Andrade, Rubem Fonseca e
Machado de Assis. Partiu ela da premissa egoísta; se eu não gosto, ninguém aqui vai
ler.

Classifico como absurda essa ideia de que só existe uma verdade, e esta é a minha.
Sobre isso o filósofo francês, Foucault disse que as verdades nunca são livres, são
sempre manipuladas e vão gerar formas de comportamentos diversos e
constrangimentos.
Todos os assuntos estão polarizados. Ou somos contra ou a favor, ou somos aliados
ou adversários ferrenhos. Assim é quando discutimos as questões climáticas, religião,
futebol, corrupção, os rumos da economia, indicações ao Oscar e a política segue esta
vertente perigosa.
Por mais que sejamos ideológicos, os opostos não precisam se odiar, tampouco
menosprezar quem tenta fazer a paz reinar entre eles. Considero conviver um
exercício de observação e aprendizado fabuloso. A troca, sem intervenção, me
completa. Valores e princípios diferentes agregam sabor a existência. Acho que nasci
com a intuição para buscar a sabedoria que está no meio.

Fazer descer a virtude do céu

Os sujeitos estão fragilizados. São cada vez mais os dedos que se queimam no calor das discussões, quando as emoções são atiçadas.

A socióloga polonesa Elzbieta Tarkowska, citada várias vezes pelo sociólogo Zygmunt Bauman, diz que a indefinição e insatisfação que permeia nossas vidas, remete à ideia do caos, porque estamos sempre, de certa forma, vivendo um estado de coisas caracterizados pelo fluido, pela ausência de forma, indeterminação, indiferenciação, a total confusão.

No estado de caos a mudança é permanente, a situação parece, aos que nela estão envolvidos obscura e imprevisível. Entendo o caos descrito por Tarkowska como um estado de coisas em que tudo pode acontecer, um estado em que a probabilidade de um certo acontecimento não é superior a de qualquer outro, ou ainda que fosse, não poderíamos prevê-lo.
A existência caótica é desprovida de estrutura, de lógica, sem clara distribuição das probabilidades e a ausência de intervenção no desenrolar dos acontecimentos cotidianos.

As transgressões vão acontecendo, abrindo brechas, até que o absurdo se instala em nossas vidas.
O confronto com o caos já seria por si bastante perturbador e doloroso, mas a novidade do fato, é que aqui estamos nós absortos, indiferentes em meio a toda desorganização de nossas existências.

A ordem tão almejada existe tanto quanto existe a desordem. São faces da mesma moeda.

As pessoas se adaptam facilmente à riqueza ostentada e à miséria interior ocultada. Tudo está no palco do espetáculo: catástrofes, crueldades, epidemias e outras tragédias que imundam a ordem dos nossos dias.
No mundo contemporâneo o que conta é a habilidade de se mover, não importa se para frente ou para trás. Não queremos que nossa identidade se fixe. Somos seres multifacetados.

Todavia, o mundo que habitamos esta cada dia mais assustador, ambíguo, incontrolável, violento e instável.
A vida política, inclusive foi atingida por evidente fase de desconsideração.

A ciência tem explorado a complexidade, o inédito, porém evidencia-se que não há busca pela harmonia na mesma proporção. “Um caminho parece claramente traçado. É o caminho da perda de sentidos, do conformismo, da apatia e da repetição de formas vazias”, como afirmou Castoriades, filósofo grego/francês, quando escreveu sobre a ascensão da insignificância.

Embora haja uma exigência de se buscar novos objetivos políticos e novas atitudes humanas por seguir caminhos dignos, o que vejo são poucos sinais de que isto esteja acontecendo.

As grades que sustentam a democracia

Um certo frio percorre “a espinha” de quem lê Como as Democracias Morrem, o fabuloso livro escrito pelos Cientistas Políticos americanos, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt.

O livro foi escrito após muitos anos de estudos e levanta uma questão, até então improvável no consciente da maioria dos americanos: estaria a democracia americana em perigo? Os professores de Harvard dedicaram mais de vinte anos estudando o colapso das democracias na Europa e na América Latina, e acreditam que a resposta é sim, apesar dos sinais, nem sempre perceptíveis aos olhos dos cidadãos.

Os exemplos são históricos e globais, porém vamos tomar o recorte puramente das explicações das atitudes que contribuem para o esmorecimento da democracia, vamos enfatizar as atitudes que fazem paralelo com situação brasileira atual e observar em que nível de estabilidade ou instabilidade nos encontramos.

Observam que a democracia não termina mais com uma revolução ou golpe militar, mas com o lento e contínuo enfraquecimento de instituições, como o judiciário e a imprensa, e a gradual erosão das normas políticas observadas e respeitadas de longa data.

É dito que as democracias não morrem mais apenas nas mãos de generais, mas através de atos de líderes eleitos, presidentes ou primeiros-ministros que subvertem o próprio processo que os levou ao poder e com frequência, as democracias vão morrendo aos poucos, em etapas sutis, para não favorecer a reação da oposição.

É incrível, mas o retrocesso democrático hoje, pode começar com o resultado das urnas A maioria dos países realiza eleições regulares. Desde o final da Guerra Fria, a maior parte dos colapsos democráticos foi causado pelos próprios governos eleitos democraticamente.

Sem sinal de violência nas ruas, com a Constituição e outras instituições democráticas, vigentes. Os presidentes eleitos mantêm a aparência de democracia enquanto corroem a sua essência com atos autoritários. Como não há um único momento em que o regime ultrapassa o limite visível para a ditadura, nada é capaz de disparar o alarme na sociedade, mesmo quando a erosão avança e já compromete.

Ensinam os professores que as democracias funcionam melhor e sobrevivem mais tempo onde os sistemas de freios e contrapesos funcionam e onde as constituições são reforçadas por normas democráticas, mesmo as não escritas.

Hoje, contudo, as grades de proteção da democracia estão se enfraquecendo e  há regras que os autores observam que podem provar o esfacelamento do comportamento democrático:

  • A utilização da Receita Federal como arma política, auditando severamente e somente os oponentes relevantes, ou seja, imposição de lei seletiva.
  • Ver a imprensa e oposição como inimigos; É notável nos autocratas, a intolerância à crítica e a disposição de usar o poder para punir aqueles que venham a criticá-los.
  • Rejeição às regras democráticas do jogo ou compromisso frágil com elas:
  • Negação da legitimidade dos oponentes político: Descrevem os rivais como comunistas ou ameaças à ordem constitucional. Um sistema contínuo de desqualificação dos rivais partidários;
  • Tolerância ou encorajamento à violência: Laços com gangues armadas, forças paramilitares, milícias, guerrilhas ou outras organizações envolvidas em violência ilícita.
  • Elogios a atos significativos de violência política e medidas repressivas tomadas no passado ou em outros lugares do mundo, por outros governos.

Resta, ao final, a conclusão óbvia que figuras autoritárias não podem ser domesticadas.