Pobreza compartilhada

Em novembro de 2020, o IBGE divulgou que 13,7 milhões de brasileiros vivem em situação de extrema pobreza. Para este ano as perspectivas são igualmente desanimadoras, a demora na vacinação, economia estagnada, aumento de desemprego e alta taxa de pobreza desestruturaram as bases sociais e econômicas do Brasil e o índice de desemprego atingiu a marca de 14,2%, a maior taxa já registrada desde 2012.

No contexto global, a pandemia e a recessão por si já colocará 1.4% da população mundial em situação de extrema pobreza. Segundo dados do Banco Mundial, é seguro afirmar que a pandemia teve e tem efeito crucial na elevação da taxa de pobreza. Estas informações estão no relatório Pobreza e Prosperidade Compartilhada, publicado em outubro do ano passado.

O relatório reforça que os novos pobres gerados pela Covid-19, serão sobretudo de países que já apresentam taxa alta de pobreza em sua população. Os dados apresentados pelo Instituto Data Favela, dedicados a analisar os impactos sociais da pandemia de Covid-19 nas favelas brasileiras, destacam que 68% dos entrevistados não têm dinheiro para comida.

A migração é apontada como um meio efetivo de tirar o indivíduo da pobreza e em que pese todas as dificuldades mencionadas acima, grandes grupos fazem travessia rumo ao Brasil, buscando uma vida preenchida com acolhimento e emprego, apesar de haver mais brasileiros no exterior do que estrangeiros vivendo no Brasil.

Os haitianos migraram para Cuiabá em números assustadores, quase 4.000 pessoas, entre 2011 e 2016 e o que encontraram não foi uma situação favorável ao estabelecimento de uma vida confortável em Cuiabá. Muitos homens, com bom nível de escolaridade, foram levados para empregos na construção civil, o que lhes garantia a subsistência e nenhuma economia para trazer a família que fora deixada para trás. O haitiano tem tradição na cultura migratória, quase a totalidade dos que vieram para Cuiabá, não estavam vivendo a primeira diáspora.

Transformados em seres invisíveis, sem contar com política pública de integração social e cultural, não tiveram opção senão conviver entre si, em pequenas comunidades estabelecidas em bairros periféricos de Cuiabá. Por esta razão, quase metade desistiu de Cuiabá.

Estamos vivenciando um novo fluxo migratório, bem menor e mais visível, porque as famílias estão nas rotatórias de Cuiabá. Com o agravamento da crise econômica e social na Venezuela, o fluxo de cidadãos venezuelanos para o Brasil cresceu muito nos últimos anos. A maioria dos migrantes venezuelanos não tem cultura migratória e devem ter partido para uma diáspora temporária.

O Centro de Pastoral para Migrantes de Cuiabá, a Casa do Migrante é a referência que o migrante tem no sentido do primeiro acolhimento, da iniciativa de documentação, do encaminhamento para o primeiro emprego, está com hospedagem reduzida devido a pandemia e também porque a procura tem diminuído desde que a maioria dos cidadãos venezuelanos que estão em Cuiabá, fazem o movimento migratório circular enquanto aguardam mudança na situação econômica e política do país, para retornarem.

Algumas pessoas abrigadas na Casa esperam que o poder público local dê-lhes passagem para que possam partir para outro destino, dentro do Brasil, onde vivem outros membros da família. Os estrangeiros abrigados na Casa do Migrante cumprem regras quanto a permanência no local e são proibidos de pedir esmolas nas ruas.

O governo brasileiro tem feito trabalho de convencimento para que os refugiados em Roraima se movimentem voluntariamente para outros estados, por isso estamos convivendo com cenas de famílias inteiras, expostas ao sol, com crianças pequenas e de colo, no cruzamento de ruas com grande movimento de veículos. Estão vivendo como pedintes, arrecadam certa quantia de dinheiro, compram passagens e seguem em suas diásporas errantes, sem nenhuma estratégia para vencer o estranhamento que os separam das sociedades locais.

A sociedade local? Atira-lhes moedas.

Nunca mais sem nós

Com população estimada em 18 milhões de pessoas, o Chile vai se tornar o primeiro país do mundo a ter a constituição escrita por mulheres em número igual ao de homens. O plebiscito aprovado em 20 de outubro do ano passado, previu a eleição de um grupo de 155 cidadãos especialmente eleitos para serem membros da Convenção Constitucional, com cotas para garantir a diversidade e equidade. Isto parece proposital para diminuir a influência da elite política, dominada basicamente por homens e dar voz as mulheres, no futuro.

Ou seja, os chilenos terão uma Constituição elaborada por um grupo formado por 50% de mulheres. Será a primeira do mundo, a primeira de todos os tempos, a primeira de muitas, esperamos que sirva de modelo para a América Latina!

“Nunca mais sem nós”, foi o grito de demonstração de força das mulheres chilenas que ecoou pelo país em atos de protestos desde 2019. As mulheres têm sido a força progressista na campanha por mudanças no país, afirmando que a constituição atual não as representa nem garante a elas igualdade.

E as conquistas começaram a acontecer depois que vários comícios feministas foram organizados para protestar contra feminicídios, violência em geral contra as mulheres, mas não apenas isso, protestavam também contra o que consideravam desinteresse do estado para debater o tema e enfrentar o problema e investir numa política pública que pudesse fornecer estrutura legal para proteger a vida das mulheres. O movimento feminista chileno assumiu o protagonismo nas manifestações, aliaram-se direita e esquerda e pressionaram a classe política, que sem alternativas, apoiaram a convocação do plebiscito.

Semana passada, as eleições confirmaram os 155 cidadãos constituintes, representantes de todas as regiões do país, eleitos por um período de dois anos, que terão a responsabilidade histórica de escrever a nova constituição, instruída a fazer história na igualdade de gênero na política. Foram eleitos muitos convencionais sem nenhuma vinculação com partidos políticos ou coalizão, um recado claro que a força política tradicional não está sintonizada com o discurso e vontade do cidadão.

Pelas entrevistas lidas, a maioria dos chilenos celebram a vitória do plebiscito, a eleição dos cidadãos que irão escrever a constituição e veem nessa conquista uma oportunidade para reparar as desigualdades sociais e o estabelecimento de política de maior reconhecimento a história dos povos indígenas. No contexto do avanço da participação das mulheres na política, é extremamente poderoso e contagiante o grito das mulheres chilenas.

Ao ler sobre o protagonismo das mulheres chilenas, foi impossível não trazer a lembrança o ano de 2014, quando tive a imensa alegria e responsabilidade de organizar a vinda da Presidente do Chile, Michelle Bachelet a Cuiabá, para a abertura dos jogos da Copa do Mundo. Visita a Embaixada do Chile, visita de encarregados da missão diplomática do Chile, escolha do cardápio para o almoço oficial, convidados, carta de vinhos.

Preocupação de outros, a segurança, a estrutura de veículos e a entrada da Presidente na Arena Pantanal para o jogo de abertura Chile & Australia. A equipe de segurança da presidente nos interpela e alivia a tensão dizendo que a presidente não entraria por nenhuma porta especial destinada a autoridades. Ela chegaria na Arena Pantanal no ônibus com os jogadores da seleção chilena.

A chegada da Presidente redobrou a admiração. Sorriso farto, gestos largos, fala alta, rodeada de crianças pobres, que escolhera para fazer parte da sua comitiva oficial. Uma mulher inspiradora! Médica pediatra, mulher separada que criara sozinha 3 filhos, duas vezes Presidente do Chile, foi Diretora da ONU para questões das Mulheres e atualmente é alta-comissária da ONU para os Direitos Humanos.

Os desafios de um novo normal

Penso que pessoas expostas à mudanças radicais de comportamento durante um longo período, acabam mudando. Quando se abalam as bases de suas referências sociais os indivíduos mudam de lugar, adquirem outros horizontes e a vida segue. Nós somos incrivelmente capazes de nos adaptarmos a qualquer tipo de situação, não importa o quanto seja ruim.

A ansiedade pode perdurar e mudar profundamente a forma como as pessoas interagem umas com as outras por muito tempo, não creio que seja para sempre. 

É provável que as viagens continuem restritas, especialmente porque as sociedades que controlaram a contaminação por Covid-19 em sua população procuram impedir que novos casos surjam e estão fazendo a opção por manter as fronteiras seletivamente fechadas, como é o caso da Austrália, que no momento ainda mantém a opção pela não vacinação de seus residentes, devido ao baixíssimo número de casos. O país, há meses retomou a vida de antes, não   há obrigatoriedade sequer do uso de máscaras e os grandes eventos estão autorizados.

Pode haver momentos e lugares onde as restrições estejam diminuindo, seja porque os casos diminuíram localmente ou em resposta a pressões políticas ou econômicas, como é o caso do Brasil. Mas enquanto o vírus persistir em algum lugar do mundo, a ameaça de novos surtos e o retorno ao bloqueio de fronteiras permanecerão.

O trabalho remoto e as reuniões virtuais, o impacto mais óbvio da pandemia, provavelmente continuarão firmes e a volta das reuniões presenciais, palestras e cursos se darão de forma controlada. As viagens a trabalho foram sensivelmente reduzidas e adaptadas para reuniões virtuais e assim devem permanecer.

Muitos consumidores descobriram a conveniência de comprar on-line. Em 2020, a participação do comércio eletrônico cresceu até cinco vezes mais do que a taxa antes da COVID-19. Muito provavelmente grande parte das pessoas que eventualmente compram on-line durante a pandemia, continuarão a fazê-lo quando as coisas estabilizarem.

São múltiplas e notáveis as transformações em curso e uma visão quase universal é que a relação das pessoas, não todas, com a tecnologia se aprofundou e aprofundará mais à medida que segmentos maiores da população passarem a depender mais de conexões digitais para o trabalho, educação, saúde, compras e interações sociais.

Aqui estamos falando de uma classe privilegiada que pede comida por aplicativo, participa de Lives, assiste aulas on-line, faz compras virtuais, entretanto, a sociedade não é única, desdobra-se em grupos, classes, nem todos vivemos no mesmo tempo. A pandemia está testando a resiliência das comunidades em todo o mundo, exacerbando as desigualdades existentes, tornando visível aqueles para quem o mundo virtual não existe ainda, aqueles que carregam em si um passado de pobreza que nunca muda.

De toda forma, embora não seja suficiente, uma rede de solidariedade foi ativada através dos auxílios emergenciais, presenciamos mobilização para conseguir internação para pessoas em estado grave, uma rede de solidariedade correu a noite tentando comprar uma medicação de alto custo, arrecadação de alimentos para famílias cujo provedor estava infectado, solicitação de adoção de animais de estimação cujo dono faleceu de Covid-19.

Embora a pandemia seja causada por um vírus, as desigualdades realçadas neste período tem causas socias, cuja discussão tem sido sempre postergada. Não será diferente no momento pós pandemia.

As dores do mundo

“As dores do mundo” é o título de um livro de Arthur Schopenhauer. “O melhor consolo no infortúnio ou aflição de qualquer tipo será pensar em outras pessoas que estão em uma situação ainda pior do que você; e esta é uma forma de consolo aberta a todos”.

Mais de um ano após o início da pandemia da COVID-19 e em meio ao processo de vacinação, restrições ainda vigentes,  não sabemos quando a vida pode voltar ao normal nem se teremos as mesmas habilidades de convivência social quando isto acontecer. Um ano de isolamento, de falta de contato físico com familiares e amigos pode nos deixar desconfortáveis quando for possível as reuniões presenciais, as grandes festas. Penso que haverá uma hesitação entre ir correndo em busca do abraço ou permanecer com a atitude distante imposta pela bolha na qual estamos vivendo.

A pandemia do coronavírus interrompeu o fluxo que movimenta quase todos os aspectos da nossa vida diária. As regras rígidas de distanciamento, o medo de ser infectado e a falta de conhecimento sobre as mutações do vírus nos fez voltarmos todas as nossas forças para nossa própria sobrevivência e dos familiares. Nunca nos sentimos tão oprimidos por nossas próprias ansiedades.

O ex-presidente Barack Obama disse num discurso recente que: “o maior déficit que temos em nossa sociedade e no mundo agora é um déficit de empatia. Precisamos muito que as pessoas possam se colocar no lugar de outras pessoas e ver o mundo através de outros olhos”.

Em termos simples, empatia é a capacidade de compreender as coisas sob a perspectiva de uma outra pessoa. É a capacidade de compartilhar os sentimentos e emoções de outra pessoa e entender por que ela está sofrendo.

O espaço no coração para sentir a dor do outro não pode fechar-se em nós mesmos. Ao abrir as mídias sociais, fico entristecida com tantas mensagens de pesar que devo postar. De certo modo constrangida, tenho evitado postar momentos felizes vividos nesse tempo sombrio. Aos poucos o vírus causou uma mudança concreta no meu comportamento, porém um fio de felicidade percorre meu ser, ao constatar que tenho sido fortemente impactada pela dor dos outros, dos que conheço, conheci ou de estranhos.

Densa nuvem de dor tem pairado no mundo, mais especificamente no Brasil, não apenas pelos mortos ou sobreviventes da Covid, mas também pelas mulheres vítimas de violência, pelas crianças negligenciadas, abusadas e mortas por parentes correlatos, pelas crianças mortas em ataques de ódio, pelos 14.272 milhões de desempregados no país, pelo avanço das desigualdades sociais que fizeram com que 19 milhões de irmãos passassem fome no de ano de 2020.  

Entre tragédias, pandemias e injustiças, precisamos efetivamente de vacinas para todos, da garantia do pagamento do auxílio emergencial enquanto durar a pandemia, da punição severa sobretudo para agressores de mulheres e crianças.

Mas pegue leve consigo mesmo. Está tudo bem se você não está conseguindo fazer tudo o que fazia antes. Nada está como antes. Quando tivemos que lidar com ansiedade, medo e compaixão ao mesmo tempo? Quando tivemos que conviver com distanciamento, isolamento em meio a uma crise brava de solidão?

Tudo está instável, o trabalho, a vida, os sentimentos e exatamente por isso é vital olhar em volta e perceber que estamos juntos nesse mar revolto.

A transversalidade entre ser e fazer

A busca do homem por um significado consiste em identificar um propósito que o faça se sentir positivo, o que é essencial para sobreviver as tempestades e guerras simbólicas mas isso nem sempre é levado em conta quando consideramos o ambiente de trabalho da maioria de nós.

O conhecimento que adquirimos deve servir ao interesse da transformação social, subsidiar a reflexão e fornecer armas para desvelarmos a realidade e promovermos sua transformação, sobretudo nesse momento em que sentimos o peso do mundo nas costas. A pandemia impactou a vida de milhares dos mais diversos modos: perda de familiares, amigos, outros perderam o emprego, outros perderam a fé, a esperança.

Há total transversalidade entre ser e fazer, embora o ser deva sempre vir antes de fazer. Não devemos trabalhar pelo trabalho em si, mas pelo que o trabalho pode transformar em nós e na vida de outras pessoas. Nossa identidade não deve ser interpretada apenas a partir pelo nosso desempenho profissional, porém, é uma dádiva incalculável quando o trabalho reflete quem somos, pois seguramente somos bem mais que um profissional fechado nas linhas de um currículo.

O trabalho pode, sim, ser uma das fontes do nosso contentamento se pudermos nos ver no que produzimos. Trabalho e vida são criações compatíveis, transversais, principalmente quando conseguimos liberar o trabalho da relação meramente econômica. Em meio ao turbilhão de dias corridos, não devemos permitir que nossa essência se esvaia em apenas uma direção.

Equilibrar a carreira e o que reclama a vida interior, os pequemos momentos em que ninguém está avaliando é importante para que não sejamos definidos pelo que fazemos ou pelo que outros dizem ou pensam avaliando nossa performance profissional apenas, menos ainda pelo que alcançamos em termos materiais e sim, por quem somos como seres humanos.

Todo esforço que fazemos para consistentemente investir em nossas necessidades interiores, são determinantes para melhorar nossa qualidade de vida agora e no futuro.

Não estamos aqui falando de separação entre vida pessoal e profissional. Estamos falando de viver integralmente o que se carregamos no coração em todos os espaços que ocupamos. Cada pessoa tem uma série de valores com variado nível de importância dado a cada um deles. E o que propomos é que os valores pessoais sejam destacados para que posam impactar de forma positiva as atividades que permeiam o dia-a-dia das pessoas produtivas.

Quando você é maior que seu currículo você influencia as ações, decisões, o comportamento de outros e não permite que haja desconexão entre valores, sonhos românticos e trabalho. Você é a pessoa que é e isso reflete no seu trabalho e além. Nutrir a mente e o corpo com boas leituras, com o convívio harmonioso com pessoas de diferentes `backgrounds´, estar aberto a argumentações de pessoas que pensam diferente, são combustíveis que podem afugentar os demônios interiores.

 Estamos vivenciando um dramático ciclo novo, que exige a prática do autoconhecimento e da introspecção. A autorreflexão é uma ferramenta rica, quando precisamos nos recriar.

Que a doença tenha logo a cura

Eu me relaciono com a vida como um mistério que se desenrola aos poucos. Todo momento, toda circunstância é uma chance de experimentar as coisas como elas são, e não como desejo ou temo que sejam. Passo muito tempo na companhia de meus pensamentos e sentimentos, e às vezes, sou companheira da observação silenciosa.

Neste momento, impossível ignorar o contexto de caos diante da pandemia, que levou consigo familiares, amigos e milhares de pessoas que não conheço, porém tenho compaixão pelo sofrimento de todos os seres. Deixei-me sangrar no luto, porque o luto não é o prenúncio de uma vida escura. As perdas fazem parte do caminhar de todos nós.

A tristeza, às vezes arrasa como um grande incêndio, embora na mente não haja lenha, mas não vivo a fantasia de viver em paz, negando a tristeza que certos fatos causam. A dor me abre para muita ternura e amor.

Entretanto, tem sido necessário reprogramar a mente para absorver as mudanças, aceitar as novas regras de convivência. Distanciar-se é ainda estranho, assim como, impedir o abraço, sorrir com os olhos. Não são mudanças sutis que passam despercebidas. Uma série de mudanças, de um dia para outro, de uma vida para outra, além do nosso controle, dos limites da cultura de tocar, abraçar, estar juntos.

É grande a porcentagem de pessoas que relatam sintomas de ansiedade por estarem, de certa forma, ainda inseguros de retomar a rotina de atividades fora de casa. Nostalgia ao lembrar das caminhadas no Parque, jantar com amigos afetuosos, que brindam e abraçam.

Às vezes, a impermanência é essa ruptura radical mesmo e não há nada que possamos fazer além de acumular o mérito de recitar orações, cada um ao seu Deus ou nenhum, para que nos libertemos do medo da doença, para que possamos abrir os olhos e dizer sim para as coisas das quais nos afastamos.

Quando as coisas estão difíceis, abro meu coração ainda mais para a reconciliação com a esperança eclipsada pelo caos que dura muito mais do que imaginávamos.

Como a pandemia não passa, estamos vivenciando este ciclo hora pós hora, há como certo, formular que, passar por momentos turbulentos dói, que o sofrimento faz parte da vida e que ainda assim podemos cultivar uma relação positiva conosco e com os outros, protegidos de reações emocionais exageradas e descansar a mente na perspectiva que contém confiança no rumo que as coisas vão seguir. Que a doença tenha logo a cura!

Estou consciente que muito prezo a conexão com as pessoas e nunca mais quero estar ocupada demais para parar, expressar apreciação e conhecer alguém.

A raiva da quarentena

As emoções estão à flor da pele na medida em que o distanciamento social se estende e nossas liberdades permanecem restritas. Esta crise está testando nossa paciência e sensibilidade diante de circunstância dramaticamente excepcional. Algumas emoções elevam-se nas cabeças das pessoas, como por exemplo, a raiva.

Raiva pelo vírus, governo, mídia e, raiva pela injustiça quando a maioria das pessoas seguem as regras, geralmente com um custo pessoal enorme, e uma minoria não, incluindo algumas em posição de poder.

Muitos estão bravos com a forma como o governo federal está lidando com a pandemia. Mostram-se indiferentes e não se importam com quantas pessoas estão morrendo.

O surto da doença Covid-19 pode ser estressante para as pessoas. O medo e a ansiedade sobre uma doença desconhecida podem ser avassaladores e causar emoções fortes em adultos e crianças.

Como você responde ao surto pode depender do seu histórico, dos apegos e das particularidades que o diferenciam das outras pessoas. Mas, diante de uma pandemia global causada pelo vírus que não entendemos completamente, há muito fora de nosso controle, desde as ações de nossos vizinhos até o momento em que oficializarem uma vacina.

Pesquisas sugerem que pessoas forçadas a viver em quarentena enfrentam um risco maior de ansiedade, depressão, raiva, irritabilidade, insônia e sintomas de estresse pós-traumático. Quanto mais a quarentena dura, pior o seu impacto no bem-estar psicológico das pessoas.

Algumas pessoas se sentem mais estressados e angustiados quando sentem que a vida está fora de controle, outros convivem bem com isso. O quão desconfortável você está com a incerteza e o quão desesperadamente precisa retomar o controle de sua vida pós coronavírus, pode depender de sua personalidade, porém, em alguma medida, não há dúvida de que as medidas restritivas de ficar em casa têm sido bastante complicadas para todas as pessoas, entretanto, controlar o vírus deve vir primeiro lugar.

E assim, junto com o sofrimento e a ansiedade, a perda do que tínhamos no passado e o medo pelo futuro, há outra grande emoção que está se espalhando: Não sabemos quanto tempo isso vai durar.

Praticamente todo comércio reabre esta semana. Mas isso não significa abrir guarda com relação aos cuidados de higiene e a recomendação de distanciamento social. A vida segue, com restrições.

Quando retornarmos ao estágio normal de vida

Segundo observação da ONU esta é uma crise de saúde global, diferente de tudo o que se viu em 75 anos de história das Nações Unidas.

Desde o estabelecimento da pandemia do Coronavírus, há um sentimento quase geral de que o mundo está vivendo um momento crucial e nada será como antes. As ponderações realísticas voltam ao estado forte, a ascensão do nacionalismo, o decréscimo na crença da governança global, o que significa, uma leve retração no processo de globalização. Durante o período da pandemia, os governadores e prefeitos se responsabilizaram em liderar a luta contra o vírus e assim, expandiram suas autoridades na esfera mais sensível da vida dos cidadãos.

Ainda bem, né? Porque o governo federal optou por não encarar os fatos, por tapar os olhos aos mil mortos por dia no Brasil. Numa reunião de quase três horas de duração entre o Presidente da República e seus ministros, as palavras “Coronavírus e Covid-19” apenas foram mencionadas fora do contexto do momento caótico que estamos vivendo para sinalizar que é a hora propícia de distração da mídia para avançar, às escuras, na flexibilização das leis ambientais.

Estamos sós, trançados no medo de que o amanhã não chegue e ainda assim,  temos ouvido vozes positivas dizendo que quando a crise da Covid-19 passar, ou pelo menos quando nos permitir retornar ao estágio normal da vida, teremos grandes mudanças, cooperação global e melhor preparação para a próxima pandemia. Acreditam que as pessoas experimentarão mudanças pessoais também, serão talvez mais tolerantes, mais amorosas e desprendidas em relação ao valor dado às coisas materiais. Não custa crer que ressurgiremos mais fortes num mundo de valores novos porque não existe lado bom nessa crise. Mesmo se morresse uma pessoa por dia de Covid-19 já seria inaceitável.

Esta crise está testando nossa paciência e sensibilidade diante de circunstância dramaticamente excepcional.

Não faz bem sermos obsessivos em acompanhar as notícias, sobretudo porque o vírus foi politizado. Esta crise está se desdobrando lentamente e não temos que ficar presos a ela, minuto-a-minuto, tampouco mover-nos em preocupação com o retorno às aulas, a realização ou não do ENEN, das eleições municipais e outras pautas que podem esperar. Não há quem saiba como as coisas acontecerão na próxima semana.

Para a maioria este é um tempo depressivo, incerto, com elevado grau de ansiedade. Alguns estão isolados, outros sentem a pressão de estarem mantendo convivência de risco no trabalho o dia todo e há os que perderam o trabalho e a esperança.

Cada pequena mudança em nosso estilo de vida pode ser surpreendentemente difícil, isso serve para todo mundo. Para usar uma metáfora, você pode não ser capaz de determinar quais são os obstáculos internos que você enfrentará mas você pode se tornar mais forte mentalmente para enfrenta-los.

Entre o bem e o mal, para a maioria de nós, é um pouco dos dois lados, dependendo do dia. Por ora, basta afugentar o medo e o pânico que tornaram virais desde o início da crise meses atrás. Preocupações habituais são pensamentos familiares e o que importa é que apesar das preocupações com a vida pós pandemia, você esteja seguro e bem cuidado.

Não há nada certo além da incerteza

Aos poucos vamos recobrando a esperança de retornar aos dias alegres, sem a ameaça avassaladora da Covid-19. O medo, no caso, foi salutar, porque nos fez ter consciência dos perigos e nos obrigou a um refletido recolhimento e parada. Desde os primórdios, a humanidade não teria progredido sem o medo que a alertou dos perigos sucessivos que se apresentavam nos caminhos. Se fizermos um recorte da história, observaremos que as comunidades humanas sempre viveram sob fortes ameaças, de epidemias, tempestades, tremores de terra e guerras.

De todos esses males, os mais mortíferos eram as epidemias. De 1347 a 1350, a Peste Negra dizimou um terço da população europeia. Sem dúvida, as epidemias continuam nos assombrando; a Gripe Espanhola, Ebola, AIDS, que já matou milhares de pessoas no Planeta, desde 1980 mas a guerra se tornou o perigo número um para a humanidade.

Hoje, o medo nos leva a criar muros, grades e distanciamentos, o medo de sair às ruas e estar exposto à pandemia.

O sociólogo, psicólogo e cientista político alemão, Ulrich Beck diz que vivemos num paradoxo, onde as instituições feitas para controlar o medo produzem exatamente o seu descontrole. São tantos os perigos, que o sociólogo se refere ao conceito, relativamente novo, de uma sociedade de risco, reforçada por nossas incertezas.

A análise de Beck sobre os riscos sociais diz que os riscos são objetos de distribuição, entretanto, acaba expondo falta de democratização dos riscos, pois embora, no caso do Coronavírus todos estejam sujeitos a contrair o vírus, as diferenças em recursos econômicos permitem aos que estão em vantagem financeira minimizarem os riscos de morte. (podem guardar a quarentena em casas confortáveis, não utilizam transporte público e não precisam aguardar vaga em UTI quando são diagnosticados positivos).

A civilização é vulnerável, dependemos de sistemas complexos para manter a vida e não somos poupados. Como disse Zygmunt Bauman, em sua síndrome de Titanic, temos medo de um colapso ou catástrofe que possa cair sobre todos nós, atingindo indistintamente. Temos medo do iceberg, espreitando em emboscada.

Não sei dimensionar o risco que corremos. Mas, claro, não é quantidade de risco que importa, mas a súbita impossibilidade de um controle total do mal que nos ameaça num mundo interconectado, mas com certa tendência ao descontrole. Vidas adormecidas e essa reviravolta destruiu ou empurrou para diante quase todas as prioridades.

Apesar de tudo, a mente de muitos rejeitou a tragédia. E talvez o mais incrível obstáculo para a prevenção da contaminação tenha sido a descrença dessa parcela da população. A maioria porém, constatou atônita que o apocalipse não aconteceu apenas na densa floresta tropical do Vietnam, como no épico filme Apocalipse now, de Francis Ford Coppola, estrelado por Marlon Brando. Desta vez, aconteceu em toda parte do planeta.

Escrevi “aconteceu”, numa referência espontânea ao passado. Tomara que esteja realmente passando. Há lugar para esperança!

A pandemia e o processo de globalização

O sociólogo Octavio Ianni ao discorrer sobre a sociedade mundial disse que o mundo é uma realidade social, complexa, difícil, impressionante, fascinante mas pouco conhecido. O mundo está abalado. Tudo o que parecia estável sofre transformação. Mesmo o que permanece, não é a mesma coisa.
Altera-se a forma como nos relacionamos. Fomos todos levados para um cenário novo, inesperado e assustador.

É como se a própria terra assumisse uma fisionomia distinta, com o horizonte da globalização a nos ameaçar, com o surgimento de um vírus impiedoso e global.

Quase todos os lugares foram alcançados, cada ponto do espaço na metrópole ou na pequena cidade e somente a minha e a sua casa é o que temos de proteção.
Sob muitos aspectos essa nova situação muda definitivamente nossa ideia de lugar, de espaço. Voltamo-nos para dentro de nós mesmos e num prazo de 30 dias estamos nos reconhecendo numa rotina sem dinamismo, carregada de preocupações.
Estamos todos sendo desafiados e levados por um caminho que muitos antes de nós trilharam ao vivenciarem outras epidemias e 2 grandes guerras.
Se tentares ir para outras terras, não acharás novas terras, esta epidemia há de seguir-te por onde andares.

A afirmação de que os seres humanos estão hoje em contato uns com os outros, em todo o mundo, como nunca na história, não tem controvérsia e isso diz respeito a globalização, processo em que os povos do mundo compartilham uma sociedade global dinâmica. A globalização ou globalismo não é um processo de comunhão simplesmente político-econômico, mas também social, cultural, compreendendo problemas que podem ir de ecológicos e religiosos a problemas de saúde pública. E eis que um surto globalizado abala nossas relações e nos impõe o distanciamento social.

O novo coronavírus está se transformando em um enorme teste de estresse para a globalização. À medida que as cadeias de suprimentos se rompem, as nações acumulam equipamentos de proteção, suprimentos e equipamentos médicos, limitam as viagens, vigiam as fronteiras. A crise está forçando uma grande reavaliação da economia global interconectada. A globalização promoveu uma profunda interdependência entre empresas e nações, que as torna mais vulneráveis ​​a choques inesperados. Agora, empresas e nações estão descobrindo o quanto são vulneráveis.

Mas a lição do novo coronavírus não é que a globalização falhou. A lição é que a globalização é frágil, apesar ou por causa de seus benefícios. Por décadas, os esforços incansáveis ​​de empresas individuais para eliminar a concorrência geraram riqueza sem precedentes.

Não é de surpreender que a epidemia do COVID-19 esteja sendo usada nas narrativas nacionalistas, como se vê aqui no Brasil. Para muitos as origens chinesas da doença simplesmente reafirmam a crença de que a China representa um perigo para o mundo e não se pode confiar que  se comporte de maneira responsável. Em um mundo inundado de desinformação, o COVID-19 está contribuindo para aumentar as conversas errôneas.

No âmbito destas configurações qualquer fato que ocorre em qualquer lugar do mundo, pode produzir efeitos imediatos em outros lugares. Cada vez mais pessoas experienciam viagens internacionais e casamentos transnacionais.
Quais lições tiraremos para vida depois que a vida se restabelecer normal? Modificarão os significados das fronteiras?