Pacificação e reconciliação

Tenho expressado aqui a minha preocupação com o ambiente hostil, com a campanha difamatória em andamento, com os ataques contínuos contra as instituições democráticas, atos de intimidação e ataques online e offline. O Brasil entra na reta final de sua temporada de campanha, com uma enxurrada de ameaças de morte motivadas pela política, agressões e até assassinatos e em todo o país há o medo de uma violência mais generalizada ainda após a eleição de hoje. Autoridades e analistas confirmam que nesta temporada eleitoral houve um aumento incomum nos ataques entre apoiadores dos candidatos.

Feliciano Guimarães, diretor acadêmico do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no Rio de Janeiro, falou sobre o recente aumento nos ataques. “Embora sempre tenha havido violência política perto das eleições, era muito fragmentada e mais sobre questões locais do que motivações nacionais. Mesmo que os piores temores não se concretizem, a eleição terá efeitos duradouros. A polarização política que temos no Brasil hoje e os ataques ativos às instituições são muito perigosos para o sistema político”.

Mas precisamos caçar jeito para falarmos sobre a pacificação do país, a reconciliação com amigos e familiares, dos quais nos afastamos, porque permitimos que divergências políticas adentrassem a esfera familiar. A reconciliação é a chave para o futuro de uma sociedade pacífica, justa, democrática e inclusiva.

A palavra “reconciliação” é frequentemente usada no discurso público. Somos um país com profundas raízes espirituais, os brasileiros dizem que a religião é importante para suas vidas, e, portanto, não surpreende que a reconciliação para muitos, esteja ligada ao perdão. Muitas tradições de fé entendem a reconciliação como um processo restaurativo recíproco, é importante reconhecer que a reconciliação não é uma atitude mas a combinação de processos que, em conjunto, conseguem abordar o passado, seguir, construir confiança, construir coesão social e criar paz sustentável.

No primeiro turno das eleições tivemos um cenário de vitória histórica para a diversidade. Duas mulheres indígenas e duas mulheres trans foram eleitas e certamente o foco dessas ativistas deve ser a transformação do Congresso em uma casa mais inclusiva que possa promover, avançar e implementar políticas favoráveis à proteção do meio ambiente e contenção do racismo e preconceito.

Dom Orlando Brandes, Arcebispo de Aparecida, nos deu uma receita singela para instalarmos aqui a pátria ideal: “para ser pátria amada não pode ser pátria armada. Para ser pátria amada, devemos ser uma república sem mentiras e sem fake news. Pátria amada sem corrupção, pátria amada com fraternidade”. Seguir nessa direção pode ser o começo.

No momento em que preparava para enviar esse artigo, a deputada Carla Zambelli, desequilibrada, sacava uma arma e apontava para uma pessoa em uma rua de São Paulo. Senti-me ingênua e tola, escrevendo sobre paz e reconciliação.

Sinais ameaçadoramente contemporâneos

Em uma semana estaremos votando no segundo turno da eleição presidencial. Sempre temos escolha: podemos deixar que as circunstâncias de nossas vidas nos endureçam e nos tornem cada vez mais ressentidos e temerosos, ou podemos deixar que elas nos abrandem e nos tornem mais tolerantes e gentis. Eu escolhi abri mão do voto secreto e me posicionei sem discutir, sem invadir a privacidade de nenhum amigo para criticar ou atacar e na mesma linha também não permiti invasão nas minhas páginas para me questionarem. O tempo todo dessa interminável campanha, eu fui civilizadamente fiel às minhas convicções e cuidadosa no trato com as pessoas. 

Para acalmar a incerteza e preencher lapsos de ignorância, recorri à leitura. De forma desordenada cronologicamente, ia de “As origens do totalitarismo”, de Hannah Arendt à Platão, que catalogou algumas formas de governo experimentados pela humanidade, até o best-seller dos cientistas políticos americanos, “Como as democracias morrem”. Assustada, assinalava as coincidências encontradas nos fragmentos de nossa democracia, que foram ficando pelo chão.

Ao ler o título do último capítulo de ‘As origens do totalitarismo’, parei e pensei: sim, é isso que estamos vivenciando: Ideologia e terror: uma nova forma de governo. Não temos um presidente governando a nação, temos um homem obcecado pelo estabelecimento de padrões morais, escorados na família tradicional, na fé e patriotismo cegos, independentemente de o governante, ele mesmo, ser um bom cristão, cultivar valores morais no seio da família. Nessa perspectiva, importante é incutir e pregar a moralidade como uma ideia central, mas ser, de fato, um cidadão moral, não vem ao caso. 

Bolsonaro teceu uma estratégia de investir fortemente no apelo cristão e messiânico, dando ‘evidências públicas de ser um bom cristão’, ao mesmo tempo em que reverbera o desprezo pelas minorias, pelos pobres, pelos que não são conservadores, então, tem pregado para seduzir e mobilizar sua base religiosa conservadora.

Uma implicação interessante na análise de Arendt é que o governante totalitário normalmente não é justo ou sábio; ele é simplesmente aquele que veio para quebrar conscientemente o consenso, colocar o pé na porta das instituições que regulam seu poder. Exatamente como aqui, agora, há uma grande massa disposta a renovar a compra de uma narrativa que os enfeitiçou quatro anos atrás e que transcende a compreensão de valor e de realidade. 

Embora as observações de Hannah Arendt, obviamente não podem explicar tudo sobre os complexos desenvolvimentos políticos de hoje, não deixam de ser reveladoras, pois fornecem informações sobre os mecanismos que permitem que tantas pessoas aceitem prontamente viver de mentiras. “Num mundo incompreensível e em perpétua mudança, as massas haviam chegado a um ponto em que, ao mesmo tempo, acreditavam em tudo e em nada, julgavam que tudo era possível e que nada era verdadeiro”.

A sociedade vigiada de 1984 e 2022

Um livro que se conecta aos dias de hoje é 1984, escrito por George Orwell em 1949, um livro para ser lido ou relido em tempos difíceis. É um livro que merece uma leitura atenta especialmente pela maneira como captura muitas tendências políticas preocupantes ainda em uso nas sociedades atrasadas.

É um romance perturbador sobre um governo poderoso, que criou um sistema de monitoramento através das teletelas instaladas por toda parte, para que o Grande Irmão, o estado, pudesse controlar e vigiar as atitudes e pensamentos das pessoas 24 horas por dia, promovendo programação de lavagem cerebral e punição diante de qualquer tentativa de criticar, sonhar, romantizar a vida ou fazer uso dos talentos inatos.

Paralelos, contradições e analogias feitas para mostrar que tal poder não reside somente nos governos, embora não possa florescer sem a concordância destes. No ano de 2022 vivemos felizes e colaborativos numa sociedade vigiada por milhares de agentes do Grande Irmão, que bisbilhotam nossas vidas sem grande dificuldade, porque nós mesmos projetamos nas mídias sociais imagens detalhadas de nossas rotinas, antecipamos nossos sonhos e demonstramos a predileção política, sob a pena de sermos alvos da pressão da invasão de propaganda, das tentativas de manipulação e um bombardeio de fake news que favorecem os planos do  grande senhor, de sustentar e prolongar o poder do estado que criou para si e para os seus.

Winston, o personagem principal do livro era funcionário de um Departamento do Ministério da Verdade, encarregado de falsificar os registros históricos, para que constem apenas fatos que expressem apoio ao governo e, secretamente acumulava revolta contra o grande irmão e desafiou toda engrenagem de vigilância e alienação.

Em 2022 muitos questionam a agressividade, o preconceito do grande líder e se movem esperançosamente em direção à libertação, independente da grande massa que não se preocupa em questionar, analisar criticamente os atos e palavras pronunciadas pelo grande irmão. Outros, negociaram o direito inalienável de pensar livremente pelo discurso hipócrita de defesa da tradicional família perfeita e pela fé, que nem deveria estar incluída nas coisas do estado.

No livro 1984, escrito há 72 anos, George Orwell faz um importante alerta sobre a perda da liberdade e da democracia quando o estado, através de seu aparato de intimidação e vasto exército de fanáticos atuam como transportadores de informações e como auxiliares de vigilância, em 2022, fazendo uso da farta tecnologia disponíveis nos smartphones, os intolerantes invadem a caixa de mensagem das pessoas para profetizar a continuação do poder do mito, o grande senhor que governa acima de tudo e de todos.

Em 1984, o estado faz uso de seu vasto império de vigilância para manter a ordem, em 2022, contrariando o ensinamento do livro, o grande irmão brasileiro armou a população civil e incitou a quebra da ordem com invasão de instituições.

Em 1984, o governo constantemente apaga e reescreve a história que se tornou inconveniente, permitindo limpar a memória e continuar vivendo sem o peso das suas transgressões e em 2022 isso não mudou. Declarações graves dadas e atos polêmicos são desmentidos, mascarados ou sutilmente justificados e no momento conveniente, de olho no voto, o grande irmão vem a público, com as veias do pescoço saltadas pelo esforço e se desculpa.

A polarização não parece ser uma manifestação efêmera

Em 2017, o historiador e escritor polonês, Karol Modzelewski, figura proeminente do movimento Solidariedade da Polônia, observou: “Agora existem duas Polônias. Recebemos as mesmas notícias mas não lemos os eventos da mesma maneira. Também não temos os mesmos valores. É como se estivéssemos perdendo nossa linguagem comum. Já não ouvimos uns aos outros e já não falamos uns com os outros. Pior, não queremos mais falar um com o outro”.

Um novo estudo sobre polarização política liderado por cientistas políticos da centenária Brown University, fundada em 1794 nos Estados Unidos mostrou que a polarização – percepções ideologicamente distorcidas da mesma realidade – é mais forte em pessoas com menor tolerância à incerteza em estágios gerais da vida. Isso estabelece que parte da animosidade e mal-entendido que vemos na sociedade não se deve a diferenças irreconciliáveis ​​em crenças apenas políticas, mas depende do grau de incerteza que as pessoas experimentam na vida cotidiana.

As interpretações dos fatos carregados de ideologia distorcida trouxeram consequência terrível para nosso mundo político. Grupos políticos tornaram-se ideologicamente mais homogêneos, distintos e desconfiados das pessoas que seguem do outro lado e as imagens dos apoiadores tornaram-se ridiculamente estereotipadas, para seguir, agradar e mostrar identificação cega com o líder.

Esse recrudescimento ideológico foi trazido para dentro dos lares, para os estilos de vida em sociedade. A diversidade de convivência mingou. Não estamos mais falando apenas de uma política polarizada, mas de uma sociedade dividida onde liberais, progressistas e conservadores cada vez mais se segregam. As pessoas intolerantes e preconceituosas estão mais confortáveis para deixarem escapar ‘suas verdades’, como o pronunciamento gravado da advogada mineira ridicularizando os nordestinos. Todo mal extravasado no discurso sempre existiu na mente da advogada, o momento polarizado a deixou confiante para se expressar.

Não é um bom sinal para a democracia quando as pessoas começam a usar a política para justificar todos os ângulos da vida. O pluralismo político pressupõe que os indivíduos e seus padrões de relacionamento determinam suas lealdades políticas, mas com a política partidária em segundo plano, organizando interesses e identidades, mas não ditando a vida cotidiana e as relações sociais.

Em contraste, quando o partidarismo ideológico assume o controle e afeta substancialmente as relações sociais que as pessoas expressam em público, a polarização partidária se torna esse processo descontrolado, que estamos vivenciando.

É cedo para entender se a atual onda de polarização vai remodelar permanentemente o cenário político e social do Brasil, ou se, ao contrário, é uma  paixão, que em breve vai passar.

O jogo tem que ser limpo, quem ganhar, leva

Neste momento uma das maiores democracias do mundo está realizando o que muitos descrevem como a eleição presidencial mais importante e dramática dos últimos anos, como admitiu o ex-assessor de Trump Steve Bannon em entrevista a uma emissora inglesa. Os jornais mais importantes do Brasil e do mundo também tratam essa eleição, como a mais importante desde a redemocratização do país.

À medida que a apuração dos votos se aproxima, meu medo é que Bolsonaro permaneça no poder, usando um segundo mandato para minar de forma efetiva as instituições que sustentam nossa democracia. O destino da democracia do Brasil e das relações dos outros países com o Brasil será decidido nessas eleições, asseguram senadores democratas americanos, demonstrando grande interesse na eleição e preocupação quanto as declarações do presidente Bolsonaro quanto a desconfiança no sistema eleitoral e se ele vai acatar pacificamente o resultado das urnas.                                                            

O desprezo de Bolsonaro pela democracia está bem documentado. Em mais de uma ocasião, ele afirmou que só deixaria a presidência “morto, preso ou vitorioso e nunca serei preso”. Embora nunca tenha registrado percentual maior que 35% nas pesquisas, Bolsonaro repete que se obtiver menos de 60% dos votos, é porque algo anormal aconteceu.

São falas desconexas de um presidente que passou a maior parte do seu governo atropelando todas as regras do estado brasileiro, por puro desdém pelas instituições, enquanto sua política econômica empurrou 33 milhões de brasileiros para a pobreza, para a fome, os abalos também foram sentidos nos cortes erráticos em áreas sagradas que abrigavam o pensamento crítico; as universidades, onde o corte de orçamento foi justificado por ser uma área de foco contínuo do comunismo.

Todo ódio e descaso destilados ao longo desses intermináveis quatro anos deixaram fissuras profundas mais de 660 mil famílias brasileiras atingidas pela pandemia, que viram pela televisão seu presidente imitar pacientes morrendo com falta de ar. Bolsonaro fez inimigos políticos, armou a população civil como se estivesse formando um exército particular, porque percebeu que os militares brasileiros devolveram o poder aos civis, depois de 21 anos do golpe, assegurando que haviam cumprido  a missão de pacificar o país e preservar a democracia, portanto não há sinais eminentes da possibilidade de golpe.

 O Alto Comando do Exército inclusive assegura que em suas reuniões não se tem tratado de assuntos de natureza política e todos os 16 generais da cúpula indicaram que vão reconhecer com tranquilidade o resultado das urnas.

Como diz o narrador na nova campanha do TSE “Paz nas Eleições”: “O jogo tem que ser limpo, tanto no futebol quanto na política, adversário não é inimigo e uma eleição em clima amistoso é vitória da democracia”. 

O limite do intolerável

A forte divisão política que antecede a eleição do próximo domingo no Brasil tem sido retratada nos noticiários internacionais como uma batalha pelo futuro da democracia na maior nação da América do Sul e muitos analistas temem que aqui possa acontecer cenas idênticas da barbárie que ocorreu nos Estados Unidos em 6 de janeiro de 2021, quando o presidente Biden venceu as eleições e Donald Trump colocou em dúvida o mesmo sistema eleitoral, que o havia elegido e incitou um gigantesco quebra-quebra no Capitólio. Coincidentemente o presidente Bolsonaro tenta deslegitimar o sistema eleitoral que o elegeu deputado federal 7 vezes consecutivas e elegeu também seus três filhos.

Bolsonaro que foi esfaqueado em um comício em Juiz de Fora (MG), em setembro de 2018, não aprendeu nada com a violência que sofreu. Alertado sobre os excessos de suas falas e exemplos o presidente tem minimizado o problema e se eximido de qualquer culpa ou incitação à violência, até mesmo diante das imagens recentes do excelentíssimo empunhando uma câmara fotográfica como se fosse uma arma e disparado: ‘vamos fuzilar a petralhada’. Cenas e palavras de apologia à tortura e violência tem sido constante ao longo do mandato.

A violência política é esse descalabro que tem início na intolerância às diferenças, que tem levado milhares de pessoas a experimentar uma sensação absurda de insegurança para se expressar politicamente.

O Datafolha, em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública realizaram uma pesquisa que mostra que 67% da população brasileira está refém do medo da violência política e que, em apenas um mês 3,2% dos entrevistados relataram terem sido vítimas de ameaças por causa de suas convicções partidárias. A ameaça à democracia tem início nesse medo das pessoas de se posicionar, nesse silencio imposto pela divulgação de inúmeros casos de agressões e até mortes provocadas por desentendimento político.

Sabemos que numa democracia saudável se vive num estado que garante a todos os cidadãos a liberdade de se manifestarem e a democracia é o único regime que permite um ambiente de debate respeitoso. O que estamos vendo no país são cenas de irracionalidade, como um carro atravessando uma manifestação pacífica de adversários; o próprio mandatário do país, em reação irada, ao vivo num debate ataca uma jornalista, não se desculpa e abre precedente para um parlamentar aliado ameaçar a jornalista num outro momento. A violência política tem várias caras, várias formas de atingir, de tentar diminuir o oponente, como o caso ocorrido essa semana em Feira de Santana, (BA), onde um candidato a deputado federal teve a fachada de sua casa pichada com a frase racista ‘fique na senzala’; um senhor de Camboriú, (SC) foi morto a socos e pontapés por um jovem de 44 anos após discutirem sobre política em local público, cenas registradas juntadas ao Boletim de Ocorrência.

Até o juiz federal Renato Borelli, responsável pelo mandado de prisão do ex-ministro da Educação de Bolsonaro, denunciou que sofreu ameaças de perfis ligados a grupos de apoio ao presidente. O juiz teve o carro atingido por fezes e ovos, além de uma pedrada. O Conselho Nacional de Justiça recomendou que a Justiça Federal providencie medidas para sua proteção. A Polícia Federal está investigando os perfis dos valentões, até para saber se são homens reais ou se escondem atrás de robôs.

Não, não são dias fáceis, considerando que o número de casos de violência ocorridos devido a intolerância política pode ser imensamente maior do que os relatados na imprensa. A grande maioria dos casos não devem ter sidos notificados, mais um sinal da banalização da violência, num país armado até os dentes. De 2018 a 2022 o número de armas registradas subiu 473% e de acordo com o Anuário de Segurança Pública, 4,4 milhões de armas estão nas mãos de particulares, dos cidadãos do bem que se exaltam à menor contrariedade.

Como não ter medo?

Não seguirás a multidão para fazeres o mal

Quando você adota os padrões e os valores de outra pessoa você abre mão de sua própria integridade e se torna, na medida de sua rendição, menos ser humano, escreveu Eleanor Roosevelt em um texto sobre conformidade. No entanto, a conformidade não é apenas uma estratégia de sobrevivência, mas também algo institucionalmente doutrinado em nossa cultura.

O escritor e pensador dinamarquês Soren Kierkegaard (1813 – 1855), celebrado como o primeiro verdadeiro filósofo existencialista contemplava a continuada tensão entre o indivíduo e a multidão. Sua obra, que a rigor é sobre a religião cristã e lida com temas como a fé, o desespero e a angústia, não soou diferente quando escreveu The diary of Soren Kierkegaard, um curto ensaio, onde ele considera o quanto nossa incapacidade de contemplação silenciosa das coisas e dos fatos nos separa de nosso verdadeiro eu e, em vez disso, nos leva a adotar passivamente, sem contrapontos, os ideais dos outros.

Se outras pessoas fazem isso, significa que isso está certo e eu devo fazer também. Certo? Não. Isso se chama o princípio da prova social, quando, para determinar o que é correto precisamos olhar para o que outras pessoas estão fazendo e o que necessitamos mesmo é despertar o espírito humano individual do transe da multidão.

O ponto central do ser humano é sua unidade exclusiva, cada ser humano tem uma realidade infinita, e é orgulho e arrogância de uma pessoa não respeitar a individualidade de seu semelhante. O papel vital das minorias é ser um antídoto para o pensamento arrasador e grupal da maioria, teoriza Kierkegaard levantando a questão do indivíduo e da multidão.  “A verdade está sempre com a minoria, e a minoria é sempre mais forte que a maioria, porque a minoria é geralmente formada por quem realmente tem opinião, enquanto a força da maioria é ilusória, formada pelas gangues que não têm opinião”.  

A evolução do mundo tende a mostrar a importância absoluta da categoria do indivíduo à parte da multidão, cada um é um indivíduo, que, embora viva num mundo conectado e compartilhado deve conduzir-se lado a lado da liberdade, da vontade. Entretanto impressiona perceber pessoas que se deixam guiar inertes, que reverberam discurso de ódio, sem reflexão, percepção e sentimento enquanto nem mesmo a fé está livre da dúvida.

“Não seguirás a multidão para fazeres o mal”. Êxodo 23:2

Interesses pessoais e a grandeza do estado

Embora estejamos (povo e instituições) acostumados a realizar eleições, Charles-Alexis de Tocqueville, pensador e político liberal francês, adverte: “é sempre necessário considerar o tempo que precede imediatamente a eleição e aquele durante o qual ela se realiza como uma época de crise nacional”. O homem contemporâneo pode ter se esquecido de Tocqueville, que também chama à atenção para a importância do princípio da participação popular, onde é importante a vigilância do cidadão aos políticos que elegem para que a vontade popular não seja corrompida.

Séculos mais tarde, estamos envolvidos num momento de pré-eleições gerais e o sentimento é um misto de tensão pela advertência citada acima e alegria por entender o momento como convite para a participação efetiva em uma festa democrática, para a libertação da política alienada e tosca que não me representa e votar com a esperança de estar contribuindo para diminuir o fosso que separa o poder da sociedade e o fosso que separa o capital dos visíveis bolsões de pobreza.  

“O espírito democrático pode fazer maravilhas, mas não produzirá mais que um governo sem virtude e sem grandeza, se cada um de seus membros estiver mais preocupado com seus assuntos privados do que com as questões públicas; mais com seus interesses pessoais do que a grandeza do seu estado”, ensina Tocqueville, para quem os indivíduos ocupados exclusivamente com coisas de interesses pessoais, se entregam a uma certa cegueira social e esse comportamento gera indiferença para com a gestão da coisa pública.

Estamos sempre nos perguntando quem será afetado e beneficiado pelas ações dos políticos. Tocqueville aponta a política como um meio de reconduzir os homens uns aos outros, obrigando-os a saírem de seus confortos individuais para se ajudarem mutuamente. A partir daí, os homens aprendem a submeter a sua vontade à dos outros e a transformar seus esforços particulares em ação para o bem comum. Como outras associações, a política tem a missão de fazer com que os homens se unam para a concretização de objetivos, que seriam impensáveis de serem realizados sem a comunhão dos esforços.

Em geral uma ação política que reflete na felicidade de pessoas de uma comunidade distante e pobre, não repercute minimamente aqui na capital ou nas cidades mais ricas; uma escola que ensina uma criança quilombola ou indígena em uma comunidade longínqua e esquecida não recebe nenhum reconhecimento pelo esforço, pelos quilômetros vencidos. Embora os homens sejam mais facilmente notados quando estão inseridos num contexto coletivo e solidário, as dificuldades do outro são percebidas apenas nos seus arredores, não além.

Se não agora, quando você vai votar para se sentir representado? Deputados, senador, governador e presidente devem ter propostas de ações que cheguem em todas as comunidades e cidades, que o bem-estar proporcionado a uma região do estado seja aclamado nas outras regiões, que os irmãos que não precisarem mais ir para a fila dos ossinhos sejam exaltados como fruto do esforço coletivo dos homens e mulheres desse estado tão rico.  

A presença de religiosos tem se tornado saliente na política

Na eleição de 2018, religiosos, sobretudo evangélicos foram decisivos na eleição do presidente Bolsonaro. Segundo uma pesquisa do Datafolha, 7 emcada 10 votaram nele. Nas eleições de outubro próximo haverá, cerca de 640 candidatas e candidatos que se intitularam religiosos, são pastores, pastoras, bispos, irmãos, apóstolos, padres e missionários, lembrando ainda que nem todos os religiosos assumem o sacerdócio como profissão.

A agenda dos candidatos está congestionada de encontros com famosos líderes evangélicos de igrejas tradicionais, como Edir Macedo, R.R. Soares, Silas Malafaia, amigos pessoais do presidente. Do outro lado, o ex-presidente Lula conta com apoiadores religiosos mais progressistas e menos famosos como Ariovaldo Ramos e Henrique Vieira, pastor evangélico, que foi vereador na cidade do Rio de Janeiro.

Onde estão os homens ungidos com a missão de cuidar da alma do povo? Muitos estão em campanha eleitoral tentando se eleger a um cargo eletivo ou empenhados em transferir votos de suas igrejas para determinados candidatos. Em Mato Grosso, um pastor da Igreja Assembleia de Deus é candidato ao governo do estado.

De acordo com uma pesquisa do Instituto de Estudos da Religião, lançar candidaturas com apelo religioso traz bons resultados para os partidos políticos. Na eleição passada, de 2020, as candidaturas que mobilizaram a religião de forma direta foram vencedoras, principalmente porque os candidatos circularam por muitos espaços religiosos, falando com os frequentadores numa linguagem familiar e se valeram da proximidade com altos escalões do governo federal, cargos notadamente ocupados homens ‘extremamente’ evangélicos.

A maioria dos líderes religiosos mais influentes, têm declarado nas mídias que continuam apoiando Bolsonaro, por uma série de motivos que vão desde os compromissos públicos com a proteção da família tradicional à defesa da isenção de impostos para as igrejas. E esses líderes se posicionam e falam abertamente sobre suas escolhas políticas e eleitorais, batendo firme para influenciar o voto de seus rebanhos, fugindo do que idealmente seriam seus propósitos.

Cientistas políticos estão debruçados em dados e observações que investigam a fundo o voto evangélico e creem que nas pequenas igrejas de bairros mais periféricos, os pastores estão abandonando a discussão eleitoral para evitar acirramento das discussões dentro da comunidade e pela necessidade dos pastores voltarem aos seus trabalhos de base, ligados às aflições da vida familiar, como, endireitar os casos de desvios, buscar vagas em hospitais, buscar trabalho, moradia.

Se a religião detém autoridade política, sua ambição é ampliá-la e não é para cumprir nenhuma missão divina, motivada a reformar a sociedade sob a orientação espiritual. Tanto a religião quanto a política têm um objetivo comum: explorar a fé para adquirir poder político. Existe, claro, grupos de pessoas que desejam mudanças em suas vidas cotidianas e ao mesmo tempo não desejam abandonar a religião. Essas pessoas tornam-se partidárias e dão tanto à religião quanto à política uma nova interpretação no sentido de equilibrar o domínio que uma tenta exercer sobre a outra.

Representatividade comprometida

Sub-representatividade compromete avanços. Não sou eu quem estou dizendo isso. É isso. A política é uma poderosa ferramenta de transformação social. É importante estar aberto ao diálogo e as novas ideias, minimizar o confronto, parar de reclamar que está tudo ruim e não ter medo de mudar de posição. 

Através dos economistas ouve-se que o tema que moverá essa eleição será a economia. A situação econômica vai influenciar muito o eleitor na hora de firmar seu voto. Não há como ignorar a pobreza extrema, o bendito sai e entra do Brasil no mapa da fome das Nações Unidas. Uma nação marcada pela estarrecedora notícia que há mais de 33 milhões de pessoas sem ter o que comer almeja mudança e ataque direto à causa, que é de conhecimento de todos os brasileiros: a desigualdade social. 

Aliás, desigualdade é uma palavra que permeia a vida de milhares de brasileiros. A desigualdade no nosso estado e no país é gritante na questão de gênero, na condição social e representatividade política. O que temos percebido são as pessoas conservadoras, brancas, influentes alegando que as minorias estão pautando as discussões políticas e as minorias reclamando que não são ouvidas e enfrentam dificuldades imensas para ocupar os espaços de poder. A desigualdade representativa em todos os poderes, principalmente no legislativo é uma realidade incontestável aqui no estado e em todo o país, onde grupos importantes são sub representados. 

Hoje, na Câmara Federal e no Senado apenas 17,8% dos nossos parlamentares são negros, embora estes representem 55% da população. Registramos avanços, mas só mesmo quem tem a grandeza de se colocar no lugar do outro ou quem vive as dores de suas necessidades, da fome ao preconceito pode formular políticas para melhorar suas vidas.

A falta de políticas públicas que contemple o cidadão negro, humilde, morador de periferia se justifica pela falta de representatividade dessa população no Congresso Nacional, onde estas pautas são concebidas. Estende a outras populações, como mulheres, indígenas, LGBTQIA+ o mesmo problema de representatividade ou falta de empatia às suas causas, o que inegavelmente resulta na falta de políticas públicas afirmativas para as populações excluídas de participarem das eleições, ou que participam sem recurso e apoio dos partidos. Lamentavelmente não será a eleição de 2022 que vai promover uma mudança radical nesse cenário e abrir espaço significativo aos excluídos, mas isso é um processo que precisa ser iniciado com educação, discussões profundas para sensibilizar as pessoas em posições de decisão e poder e principalmente, o eleitor.

Talvez o eleitor tenha se cansado de bater nas mesmas teclas todas as eleições: saúde, educação, segurança…e perceber que nestes quesitos as mudanças são lentas, muitas vezes imperceptíveis, avança-se num determinado governo, retrocede no seguinte, mas é possível sim, que o governo se comprometa com a solução de muitos problemas sociais, potencializando os investimentos em educação de qualidade, as eleições são uma oportunidade para o eleitor cobrar isso.