Nuvem vazia

Ser vazio significa ser vazio de ego, não ter nenhum pensamento de eu, não no sentido de alguém funcionar como um vegetal ou um animal selvagem – coisas vivas que meramente processam água, alimento e luz solar de modo a crescer e reproduzir-se, mas no sentido de que esse alguém cessa de medir os eventos, pessoas, lugares e coisas do ambiente em termos de “eu” e “meu”.

É como estar na névoa da manhã de um dia ensolarado, ou em uma daquelas nuvens que pairam no topo de uma montanha. Uma pessoa pode esticar o braço e tentar agarrar a névoa, mas, não importando o quanto ela tente agarrá-la, sua mão sempre permanecerá vazia. Ainda assim, por mais seco que esteja seu espírito, a Nuvem Vazia o envolverá com a umidade doadora de vida; ou não importa o quanto seu espírito queime com raiva ou desapontamento, um frescor suave o afagará como o gentil orvalho.

Livro Nuvem vazia, os ensinamentos de  Hsü Yun

 

Experiencias efemeras

Céu

Porém, se a vida na terra me limita, o céu inspira e ensina quem o contempla indagativo atrás de esperança, mesmo sabendo que as experiencias são efemeras. Experiencias extraordinárias são substituídas por outras neutras ou indesajáveis ao longo do tempo. São impermanentes, passam! Se assim não fossem, uma vez que tivéssemos uma experiencia feliz ou infeliz, a felicidade ou a dor, durariam para sempre. No entanto, nao é assim.

O nível de prazer ou dor diminuem ou se aprofundam gradativamente e entender as alegrias e sofrimentos é um elemento indispensável para nos libertarmos da ignorancia fundamental da natureza da nossa realidade e para entendermos que os fatos que cercam nossas vidas se completam.

Talidade

Todos os homens, sem exceção, desejam ter uma vida feliz e trabalham muito para conseguir isso. Conquistar liberdade e igualdade significa, no final das contas, viver uma vida feliz.

Os antigos gregos pensavam que o bem era a própria felicidade. Aristóteles dizia que o bem do homem, a felicidade, era uma atividade da alma.

A felicidade para Platão era ascender aos céus, igualar-se aos deuses. O homem deveria buscar a harmonia absoluta, ser governado somente pela razão e evitar as interferências das experiências sensíveis.

Na idade média e na era moderna, esse pensamento foi alterado para um significado mais material, onde a felicidade é prazer ou ausência de dor. Outros filósofos fazem distinção entre felicidade e prazer dizendo que felicidade é permanente e universal, enquanto que o prazer é transitório.  Spinoza diz que felicidade não é a recompensa da virtude, mas a virtude em si.

A felicidade de Bauman não é divina e nem diabólica, mas um meio termo quase impossível. Bauman propôs um plano que prevê conscientizar as pessoas de que o crescimento econômico tem limites; convencer os capitalistas a repartir os lucros em função dos benefícios sociais e ambientais e mudar a lógica social dos governos, para que os homens enriqueçam suas existências por outros meios, que não seja só material.

Materialmente, alguém é feliz porque é rico, goza de conforto. Já felicidade mental e espiritual relaciona-se com a amizade e o amor. Essas condições de felicidade dependem de causas externas, onde a felicidade é vivenciada ao se ter algo ou receber algo de alguém. Dessa maneira, quando a causa da felicidade cessa, a felicidade também desaparece, justamente por estar além de nosso controle.

Mesmo a felicidade que vem do amor, da amizade, simpatia e bondade não é algo que de que se possa depender, pois o amor frequentemente se transforma em outro sentimento, amigos se tornam inimigos.

A vida nos ensina que o melhor é olhar para o centro das coisas ao invés de olhar ao redor, procurar a felicidade em si mesmo e não no mundo exterior e saber lidar com os incontroláveis acontecimentos lançados pelo destino.

Devemos olhar para dentro de nós mesmos a fim de constatar o que cria a felicidade;  encontrar o caminho do amor ao invés do caminho de ser amado. Este é o mundo da Talidade. Ver coisas como elas são. A verdade como ela é, a felicidade em seu natural. Talidade é o mundo livre da artificialidade, onde uma rosa é uma rosa e o homem é o homem.

O homem moderno usa máscaras demais. Devemos tirar as máscaras e sermos nós mesmos, de maneira sincera e honesta e, assim, viver verdadeiramente com as limitações que nos caracteriza, pois, o rumo do que deve ser uma experiência preciosa, nunca erra

A paz e o conflito

A violência é substancial falta de responsabilidade, de consciência. A mão que sai do controle e desconfigura a realidade, promovendo uma ensandecida competição de concepções divergentes. Como evoluir a compreensão mútua entre as pessoas e o respeito pelos valores individuais?

A violência, o colapso, a ordem invertida, a dor…Por que repetem-se essas histórias de dores físicas que deveriam ser censuradas? A violência acovarda, o refúgio é o não importar-se com nada além se si. E o outro? Onde esconde-se o outro?

Se liberar-me da ambição, da dominação, não serei violento e assim como Gandhi estabeleceu-se nas bases da não violência, praticarei a Satyagraha, tornarei fraco o meu oponente através da minha gentileza; e o meu poder emergirá da verdade como atributo do poder intenso de reverter a suprema realidade.

A violência ataca, a não-violência acaricia. O que a violência destrói, a não-violência restabelece como significante. Não que mostres a outra face, mas que reafirme o propósito da tua fé e não te deixes brutalizar pelo que causa-te horror.

O que verte-te em homem é a capacidade de recolher-se, racionalizar e negar o que afasta-te da condição de praticar a virtude da bondade. A paz é um processo igualmente doloroso, por que só é buscada quando corações sangram e a tolerância está sob sério risco. capacete e pomba da paz

Vence aquele que crê

womans with ballons

Se você pensa que é um derrotado,
você será derrotado.
Se não pensar “quero a qualquer custo!”
Não conseguirá nada.
Mesmo que você queira vencer,
mas pensa que não vai conseguir,
a vitória não sorrirá para você.

Se você fizer as coisas pela metade,
você será fracassado.
Nós descobrimos neste mundo
que o sucesso começa pela intenção da gente
e tudo se determina pelo nosso espírito.

Se você pensa que é um malogrado,
você se torna como tal.
Se almeja atingir uma posição mais elevada,
deve, antes de obter a vitória,
dotar-se da convicção de que
conseguirá infalivelmente.

A luta pela vida nem sempre é vantajosa
aos fortes nem aos espertos.
Mais cedo ou mais tarde, quem cativa a vitória
é aquele que crê plenamente
Eu conseguirei!
Napoleon Hill

Os aspectos do amor

Tudo o que fazemos vai afetar a forma como as pessoas vão se lembrar de nós mais tarde. O impacto que criamos sobre as pessoas depende da maneira como agimos ao longo da vida e seremos lembrados baseados nos rastos que deixamos, pela compaixão e amor que demonstramos. A pessoa egoísta, interessada apenas em si mesma, não tem interesse nas necessidades dos outros e julga tudo e todos pela utilidade que tem para si. A esfera mais importante é doar-se. O que faz uma pessoa doar-se a outro? Isso não significa necessariamente que ela sacrifica a vida pelos outros, mas que ela doa o que é vivo nela; a alegria, interesse, compreensão, conhecimento, humor, tristeza. Enfim todas as expressões e manifestações do que é vivo nela. Além do elemento de doação, o caráter ativo do amor implica outros elementos básicos, comuns a todas as formas de amar. Trata-se de cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento.
Que o amor que nos atinge implica cuidado é muito evidente. Não é diferente do amor pelos animais ou pelas flores. Se uma mulher diz que ela adorava flores, ela nunca se esquecerá de regá-las.. O amor é a preocupação ativa para com a vida. Cuidado e preocupação implica um outro aspecto do amor; o da responsabilidade. A responsabilidade muitas vezes denota dever, algo imposto, mas em seu verdadeiro sentido, é um ato voluntário; é a resposta às necessidades expressas de outro ser humano.

Bondade amorosa

imagem budistaA igualdade na relação amorosa não significa que ambos ganham o mesmo salário, têm o mesmo status. Significa sim, que eles valorizam-se como iguais quando se trata de fazer planos, fazer amor ou tomar decisões. Um não sacrifica a si mesmo para o bem do outro . A igualdade não é baseada em estatísticas. Igualdade é baseada em valores compartilhados. As coisas que nos rodeiam estão sempre mudando; assim também os nossos pensamentos, a consciência, o relacionamento. Não queira congelar e preservar o momento presente, é preciso lembrar que a vida é um processo de constante perdas e ganhos. Nossa tarefa no caminho amoroso é parar de repetir as mesmas velhas histórias e tomar consciência que cada dia vivido, é uma página que escrevemos da nossa própria história.Cada momento é uma oportunidade para abraçar a novidade e deixar o passado ir-se.
Outro aspecto da bondade amorosa é lembrar que ninguém é considerado livre de imperfeições. E a perfeição não é crucial para as relações. Crucial é ser honesto sobre as nossas falhas, aceitarmos nossa humanidade e sermos capazes de pedir desculpas. O pedido de desculpas para outro é uma forma de compaixão para si porque significa aceitação. Este é o cerne da intimidade.

Expectativas, esperança e medo

Enquanto estou sentada aqui, aprecio a existência.

Sempre somos tomados por expectativas que geram esperança e medo. E mesmo quando acontece de conseguirmos o que esperamos,  as expectativas não cessam. Elas se multiplicam, são reforçadas e passamos a querer mais, a alimentar novas expectativas.

Se parece inevitável conter o infindável querer, possamos desenvolver expectativas sábias, baseadas sobretudo na condição de impermanência das coisas. Saibamos que isto não durará, isto nunca durou antes, Verdade imutável: Tudo passa! Esta consciência traz alívio. A dor é passageira, a felicidade também. Novos ciclos se iniciam, se fecham. Nunca se reabrem. Abrem-se outros.

Mas efetivamente a felicidade durará mais se quando estivermos atravessando dificuldades, pensarmos: “Isto não durará. Muitas vezes    atravessei tempestades e todas passaram”. Os problemas presentes,   que estamos atravessando agora, não são os maiores problemas. E os problemas de hoje, serão insignificantes no futuro.

Desigualdades naturais e sociais

criança puxando água
Uma das constantes aspirações do homem é viver numa sociedade de iguais. Mas é claro que as desigualdades naturais são muito mais difíceis de vencer do que as sociais. Aqueles que resistem às reivindicações de maior igualdade são levados a considerar que as desigualdades são naturais e como tais, invencíveis. Ao contrário, aqueles que lutam por maior igualdade estão convencidos de que as desigualdades são sociais ou históricas e podem ser vencidas.

Rousseau, no Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens, sustenta que a natureza fez os homens iguais e a civilização os tornou desiguais, em outras palavras, que a desigualdade entre os homens têm uma origem social e por isso, o homem voltando à natureza, pode retornar à igualdade. Experimente agora considerar o príncipe dos escritores não igualitários, Nietzsche, o anti-Rousseau. Para o autor de Além do bem e do mal, os homens são por natureza desiguais e apenas a sociedade, com sua moral de rebanho, com sua religião baseada na compaixão pelos defeituosos, é que fez que eles se tornassem iguais. Onde Rousseau vê desigualdades artificiais e portanto condenáveis e superáveis, Nietzsche vê desigualdades naturais e portanto não condenáveis nem superáveis.

( baseado no livro Elogio da serenidade, Norberto Bobbio)

O fluxo da existência

Talvez apenas aqueles que entendem o quão frágil a vida é sabem o bem precioso que ela representa e como é importante levá-la a sério. Levar a vida a sério não significa gastar toda a energia meditando, categorizando e classificando nossos atos. Temos que trabalhar e ganhar a vida, mas não devemos ficar entalados numa existência metódica, sem qualquer ponto de vista do significado mais profundo da vida. Nossa tarefa é encontrar um equilíbrio, buscar um caminho do meio, para aprendermos a não nos doarmos em atividades estranhas e preocupações fúteis, mas para simplificarmos nossas vidas cada vez mais.
A chave para o equilíbrio da vida moderna é a simplicidade, fazer o que é adequado e justo, apostar nos relacionamentos humanos, no conhecimento que traz a libertação, na calma diante das adversidades. Assim como as rochas que ao serem chicoteadas pelas ondas, não sofrem nenhum dano, mas são esculpidas em belas formas, nossos personagens podem ser moldados, podemos aprender com as perdas e decepções, que devidamente compreendidos, podem vir a ser uma fonte inesperada de força interior. Fortes ou fracos a nossa existência tem sido tão transitória como as nuvens no verão. Tudo muda e por esta razão podemos assistir nascimento e morte, dia e noite, sol e chuva e a vida, qual dança de formas transitórias não é independente.
Viver exige compartilhamento, conhecimento e esforço. Não é uma mera sensação agradável, uma experiência, que é uma questão de acaso, e sorte, tampouco um filme de histórias de amores felizes e infelizes. Não caia no erro de achar que viver bem é desenvolver maneiras agradáveis, estar na moda e posar de bem sucedido para influenciar as pessoas. Não! Até porque o que especificamente torna uma pessoa atraente depende da moda da época e viver a sério é uma arte. E para tornar-se um mestre na arte de viver é preciso estudar a teoria e praticar e nada no mundo pode ser mais importante que esta arte. Talvez aqui tenhamos falhado. Nossa cultura enumera quase tudo como mais importante do que aprender a arte de viver e amar.
Eduardo Galeano num belo ensaio diz que somos o que fazemos, mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos. Diz que vivemos em plena cultura da aparência, onde o contrato de casamento importa mais que o amor, o funeral mais que o morto, as roupas mais do que o corpo e a missa mais do que Deus. Tem sido mesmo assim? Enfim, o choque entre transitoriedade e relações duradoras, passado e futuro, vida séria, vida fugaz, o que somos e o que fazemos, produz um comportamento que parece o de uma sociedade que celebra distrações estéreis, que passam longe da verdade.