Conversinha de mulher

Algumas mulheres, inegavelmente, ocupam espaços importantes. São influentes, tomadoras de decisões, dão passos agressivos e decisivos na gestão de negócios, demonstram boa performance como investidoras e doam-se à ações filantrópicas.

Em Taiwan, Jamaica, Croácia, Chile, Polônia, Noruega, Dinamarca, Alemanha, Brasil e muitos outros países há mulheres governando países. As mulheres estão na BM&F, em Wall Street e nas grandes empresas. Aqui na nossa terra, o Tribunal Regional Eleitoral, o do Trabalho, as duas universidades públicas, UFMT e UNEMAT e a Academia de Letras são presididas por mulheres.

No âmbito político, as mulheres não têm a mesma representação nos cargos mais altos; nenhuma senadora ou deputada federal; apenas uma deputada estadual, duas secretárias de Estado e uma vereadora no Legislativo da Capital.

A despeito de haver um monte de mulheres fortes, que são líderes, não há o suficiente no mundo dos negócios nem na política. O Brasil ocupa o vergonhoso 29º lugar nas Américas, que tem a Bolívia na dianteira, como o país que tem maior representação feminina no parlamento.

Conversinha de mulher hoje é falar sobre o êxodo do povo sírio, do financiamento americano de guerras perpétuas, da abertura diplomática entre os Estados e Cuba. Conversinha de mulher é opinar sobre as ações coercitivas da Polícia Federal, do poder de Deus transferido aos homens mortais do Ministério Público. Conversinha de mulher é tentar entender onde vamos parar com tantos desmandos. Acreditam alguns que estamos vivendo um processo de depuração. Depois virá a paz…a tão sonhada paz…Isso sim, é sonho de homem. Mulher não acredita nisso! Não agora!

Conversinha de mulher é por fim analisar os dados dos relatórios sobre a violência contra elas e numa perspectiva realista tentar entender porque o aumento das denúncias e da pena não reduzem as agressões. Conversinha de mulher é cobrar dos governos uma reforma política inclusiva, cobrar educação de qualidade para formar os bons cidadãos para a sociedade que queremos ter no futuro; cobrar resposta rápida e eficiente para controlar as “zicas” que tornam a saúde pública vulnerável.

Em certa medida há um amplo espectro de estratégias para tornar as mulheres mais participativas politicamente, para que elas se preocupem mais com a vida cívica e com os contextos culturais e políticos de suas comunidades e o processo de engajamento naturalmente desperta a cobrança para que se coloquem nas disputas eleitorais, principalmente onde há um eleitorado desgostoso com os políticos homens que estão no poder. Não creio que seja somente questão de gênero, mas também a intenção de promover um emparelhamento de condições para romper e definitivamente deixar para trás os séculos de submissão.

Janela para o diálogo

Ao exercer a cidadania, naturalmente assumimos ares de engajamento político e isso sinceramente não é algo que emerge como se fosse da nossa natureza. É sim, um exercício cultural de realização adotado por indivíduos que interagem significativamente e puxam o debate para si. Na política nada se move ou acontece que não seja por articulação, cobrança e mais cobrança.

Lutas de décadas para consolidar a democracia, para garantir lugar mais amplo para o envolvimento de sociedades plurais na elaboração de planos de governos e estes são sistematicamente abandonados e substituídos pelas velhas práticas do toma lá, dá cá. Tem que cobrar? Tem!

A participação dos cidadãos no desenvolvimento de políticas ou no acompanhamento da prestação de serviços são disposições que dão visibilidade para uma sociedade civil vigorosa e vibrante. Os governos brasileiros tradicionalmente convivem bem com críticas, cobranças, demonstrações públicas de apoio e repúdio e o povo tem conseguido dar o recado, ciente de estar vivendo simultaneamente as duas piores crises; política e financeira.

Não somos espectadores. Somos os protagonistas de nossas existências e responsáveis por manter a vida dentro do padrão que acreditamos ser ideal, somos responsáveis por expressar ideias e defende-las com argumentação séria e procedente.

Janelas precisam ser abertas para o diálogo e não apenas para permitir troca de partido. Não devemos assistir inertes os preços subindo a níveis descontrolados, a corrupção levando para o setor privado recursos que deveriam abastecer políticas públicas, das quais muitos se beneficiariam. Não há como não nos envolvermos nas tomadas de decisões, pressionando a classe política, que em tese nos representa nas esferas mais altas na corte estadual e federal.

Cidadãos e governantes são atores inseparáveis. É pior se você pretende ignorar a política, não tomar conhecimento das audiências públicas que são realizadas, dos movimentos sociais e sindicatos que lutam por determinadas categorias. Parece razoável sugerir que o exercício para desenvolver a cultura do engajamento político comece nos pequenos agrupamentos de amigos e familiares e nas reuniões de organizações sociais.

A participação dos cidadãos nas decisões políticas é a base da democracia. E a democracia, como um processo de liberdade em construção, deve ser recalibrada e re-imaginada sempre que o caminho da política não nos ofertar serviços públicos decentes, educação de qualidade, acesso ao sistema de saúde, entre outros.

Num discurso inovador, o primeiro-ministro inglês David Cameron disse que em sua visão de grande sociedade (Big Society) é imprescindível o governo adote abordagem totalmente nova para governar; envolvendo a comunidade e os funcionários públicos nas tomadas de decisões. Em termos gerais, a medida evita pressões, cobranças dos cidadãos quanto aos serviços ofertados, além do interesse real de entregar melhores serviços a população.

A vida no piloto automático

A intrincada dança da rotina é que nos impede de quebrar certos hábitos e promover as mudanças que realmente importam em nossas vidas. São os hábitos que determinam o que comemos, como ocupamos nossas horas, como gastamos nossas economias. Como robôs ou escravos, vamos nós agindo numa sequencia de movimentos programados, que limitam os ciclos do nosso comportamento.

A vida, como um par de sapatos velhos e bons deve ser amaciada, lustrada, receber remendos, meia sola, para que confortavelmente dure muito. Vasta vida não pode existir apenas dentro de preocupações pessoais. Não existimos dentro de um quarto decorado refletindo nossas próprias imagens do piso ao teto. Dentro desse conceito estreito, a vida se torna monótona e insana. Estranhamente muitas pessoas sentem-se seguras em suas prisões apesar da natureza humana ser potencialmente criativa e transformadora.

Então, como escapar dessa prisão que transforma pessoas interessantes e competentes em seres angustiados?

Teorias de como mudar a vida podem ser encontradas em manuais e livros que buscam esclarecer porque algumas pessoas lutam para mudar e não conseguem e outras, parecem renascer a cada dia. A princípio considere que mudar a vida implica mudar os hábitos e para mudar os hábitos inexoravelmente afetamos a rotina de outras pessoas, com as quais nos relacionamos.

É um processo de libertação das amarras que fazem mal, dos laços que apertam, dos horários exíguos, do tempo escasso. Mudar a vida não é alisar o cabelo, perder peso, aprender um idioma, fazer uma viagem.  E a menos que se reconheça o peso embutido nesta atitude, a vontade de mudar permanecerá apenas como uma voz dissidente num interior declinado para a rotina.

Os hábitos que moldam a rotina são profundamente tóxicos, insidiosos e muitas vezes invisíveis como um vírus, que destrói a satisfação, a emoção rara de flertar com a vida; um sentimento que desponta apenas quando a vida não é levada tão a ferro e fogo. Em outras palavras diria que o apego aos hábitos determina falta de criatividade e controle sobre as situações que trazem riscos e que podem machucar.  A rotina que organiza a vida é necessária, entretanto os hábitos que mantém nossas vidas operando no piloto automático deixam a impressão de que a vida está apenas passando por nós…E a vida é uma jornada de acontecimentos extraordinariamente impermanentes.

Ironicamente a rotina exagerada é uma voz destoante numa terça-feira de carnaval, onde nada sobrevive a desordem da dança, da alegria, dos relógios parados, dos corpos suados. Bem feito! Quando parece que vamos iniciar a rotina, nos salva o carnaval!

Mundo perfeito?

No estado de Australia do Sul o investimento na saúde consome 31,5% do orçamento do Estado. Logo após o nascimento, o bebê é inscrito no MediCare, para ter o acesso e atendimento facilitados nos hospitais públicos. O nascimento do bebê deve constar numa central do governo que controla o pagamento da licença maternidade.

O estado, sem distinção de renda, deposita pouco mais de 1 mil dólares, por um período de 18 semanas à família. Isso ocorre porque, na maioria dos casos, as empresas não pagam salário integral às mães durante a licença de seis meses. Preserva-se o emprego por um ano, mas o salário cai ao nível de um salário mínimo por mês. Óbviamente essas condições podem ser negociadas, mas, em geral, é isso o que acontece.

Pouquíssimos hospitais são privados. O médico não pode cobrar se tiver qualquer vínculo de emprego com o governo, mesmo acompanhando paciente num hospital privado. Meu neto Leonardo nasceu num hospital privado, obstetra particular e pediatra do setor público. O plano de saúde foi acionado para cobrir as despesas do parto e o inesperado nascimento prematuro e duas semanas de UTI neonatal não tiveram custo adicional para os pais.

Uma semana após a alta, a casa é visitada por uma enfermeira, que aqui chamam de Midwives. São especialistas em atendimento pós-parto e trabalham tanto para os médicos quanto para hospitais. Ela supervisiona a cicatrização da cirurgia, pesa, mede o bebê, observa-o sendo amamentado e orienta sobre depressão pós-parto.

Na Austrália cerca de 7 em cada grupo de 10 mulheres sentem-se deprimidas quando retornam para casa com o bebê. Uma situação que preocupa o governo. Tanto que na segunda semana, uma agente de saúde, do governo faz acompanhamento da recuperação da mãe e do bebe. Percebe-se através das perguntas uma outra preocupação, a violência doméstica. Na oportunidade, em tom formal, a agente do governo instrui quanto os endereços das entidades as quais deve-se recorrer em caso de necessidade de auxílio. Ao sair, checa o quarto do bebe.

Grandes hospitais são inúmeros em Adelaide. Entretanto o governo está implantando um novo sistema de saúde, que está gerando críticas por parte dos sindicatos dos serviços da saúde e usuários. O projeto chama-se ¨Transformando a Saúde¨ e inicia com a construção de um mega hospital central, com atendimento ambulatorial contemplando todas as especialidades, centro para atendimento e cirurgias de média e alta complexidade, centro de reabilitação, laboratórios e centro avançado de pesquisas.

Disseram-me que o povo na verdade, não está interessado nesse complexo, cuja intenção do governo trabalhista é tornar a Austrália do Sul numa referencia nacional em saúde pública. Alegam ainda que o suntuoso edificio pode não atender as necessidades dos médicos e enfermeiros e que fizeram a opção por uma obra de arquitetura estética, que será entregue a população até o meio do ano.

Os antigos hospitais serão transformados em centros de atendimentos especializados, de forma que, uma vez acometido de um mal, o paciente sabe exatamente para qual unidade deve se dirigir. Haverá um hospital público para ortopedia, outro para mulheres e crianças, hospital cardíaco, outro para tratar doenças cronicas e outros. Estes hospitais estão sendo redesenhados como ambiente para cuidar de pessoas em condições de saúde complexase cronicas.

Explorando o contaditório, percebe-se que este país moderno ignora completamente os 3% da população de origem aborígene. São negligenciados pelos governos, possuem baixa escolaridade, vivem em precária condição de saúde e em estado de pobreza, longe desse mundo aparentemente perfeito.

De Adelaide, Austrália

Eu não menti para você

Ignorância não é apenas não saber. É também uma criação maledicente para que as pessoas não saibam a verdade sobre as coisas que importam. Vivemos num mundo de ignorâncias plantadas e, mesmo que os conhecimento seja acessível, nem sempre é acessado e as pessoas continuam subtraindo conhecimento da tradição, da religião e o que é pior, da propaganda.

Com isso, vamos perdendo nossa capacidade de decidir levando em consideração as informações que poderiam nos beneficar mais. Estamos cedendo muito facilmente aos encantamentos do mundo de respostas instantâneas. Devemos consultar mais, ouvir mais e mesmo com toda a imperfeição que permeia nossos seres, podemos nos reinventar a cada dia, contando com a imprevisibilidade, juntando pedacos, buscando um novo formato para nossas vidas.

Podemos crescer misericordiosos, enfrentar os infortúnios, aprender a fazer escolhas corajosas, em vez de ficarmos navegando num mundo de felicidade imaginária ou de caos induzido. A ignorância cria a ilusão de facilidades ou a paranóia de enxergar demônios em toda parte.

A vida boa não é uma coisa nem outra. Não se trata de colecionar tampouco repartir infortúnios.

Planos, assim como mentes e circunstâncias mudam. Estou cada vez mais convencida de que devemos procurar, acima de tudo, a simplicidade e não pode haver muita distancia entre o que somos e o mundo em que vivemos. A mente deve ser capaz de dar saltos que não machuquem o coracão. Muitas vêzes é mais confortável crer no tangível, no que o olho captura.

Ir além disso, almejar o que não se pode ver, pode ser pista de leve delirio.Que assim seja!

Eu não minto para você quando digo que bem-aventurados são os  sonhadores, os poetas e aqueles cujos corações podem dançar em meio as incertezas; aqueles que são capazes de iluminar a vida com seus sorrisos; os corajosos que cruzam as pontes, rompem fronteiras de um lado para outro, porque acreditam que somos apenas uma raça, uma só alma, um só coração.

Bem-aventurados os que acreditam na realidade e no milagre que só amor promove.  Bem-aventurados os que ousam ser melhores filhos, melhores pais, melhores seres humanos. Esses podem negociar com Deus suas mortalidades. Bem-aventurados os que param de desperdiçar dinheiro com coisas desnecessárias.

Estes podem visitar mais lugares, esquecer de tirar fotos e, usar a mente para recordar o que tem vivido. Que a dor e seu significado nos aflijam cada vez menos e que saibamos fazer ajustes nas nossas vidas até chegar ao ponto onde todas as distâncias necessárias tenham sido percorridas e todo o aprendizado tenha sido colocado em prática.

Jornalistas na linha de frente

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Olga Lustosa

As mulheres tencionadas a participar da economia, do sustento da familia, têm investido cada vez em suas próprias profissões. Ascendem profissionalmente e exigem respeito como profissionais e ainda aquela velha história do gênero.

Cheguei na Austrália há 10 dias e a mídia está absolutamente voltada para o repúdio aos ataques machistas, acontecidos recentemente no país, em cima das mulheres jornalistas.

O primeiro caso teve desdobramentos sérios e levou à renúncia do ministro das Cidades que, em viagem oficial a Hong Kong, na China, teceu galanteios e tentou beijar uma funcionária da Embaixada australiana.

Ela reportou o desconfortável assédio à ministra das Relacões Exteriores, Julie Bishop, a qual a Embaixada está vinculada. A notícia ganhou notoriedade depois que uma jornalista australiana comecou a investigar o caso.

Apurou os fatos e escreveu um editorial, condenando a atitude desrespeitosa do ministro. Enfurecido, ele queixou-se com o amigo, ministro de Imigração da Austrália, relatando o ocorrido, alegando estar sendo perseguido pela fúria da conceituada editora.

Para solidarizar-se com o amigo, o ministro de Imigração, escreveu-lhe que não se preocupasse e referiu-se a jornalista com palavras absolutamente rudes e vulgares. Ao enviar a mensagem atrapalhou-se e a enviou para a própria jornalista.

O incidente duplamente ofensivo, foi considerado um episódio imperdoável pelo primeiro ministro australiano e a pressão pela renúncia do ministro das Cidades foi impiedosa. Ele reconheceu publicamente o comportamento inadequado e deixou o governo.

O ministro de Imigração desculpou-se publicamente com a jornalista. Dias depois, um ídolo do criquete australiano, um dos mais bem pagos jogadores, o jamaicano Chris Gayle, ao ser entrevistado por uma bela jornalista, fez galanteios ao vivo, elogiando-lhe os olhos e quando perguntado o que esperava do jogo, prontamente respondeu que esperava vencer e mais tarde sair com ela para celebrar a vitória. Bastou!

A mídia imediatamente reagiu a deselegância do jogador. Gayle minimizou inicialmente o incidente, depois veio a público desculpar-se. Foi multado pelo seu time, o Melbourne Renegades, que em nota afirma que a política do time não aceita esse tipo de comportamento, de embaraço e assédio por parte de seus jogadores.

Gayle deve sofrer certo boicote da mídia esportiva, já que a atitude desagradou emissoras de TV, que manifestaram apoio e solidariedade à jornalista pelo constrangimento que fora exposta.

Tanto a diretoria do time, quanto o jogador demonstram preocupação em superar o incidente. Certamente não há espaço para cantadas cretinas num espaco onde deve-se apreciar o desempenho profissional em detrimento de atributo físico.

O terceiro episódio, num cenário similar e mais recente, envolve um apresentador de TV que, ao dar boas vindas a Miss Austrália, que iniciava trabalho no mesmo canal, como a moca do tempo, fez galanteios e rodeou-lhe o corpo num abraço desproporcionalmente demorado, ao vivo.

Foi empurrado gentilmente pela moça e esmagado sem piedade nas mídias sociais, pelo comportamento inadequado em um ambiente em que o relacionamento deveria ser meramente profissional e respeitoso. Teve que voltar ao vivo, sozinho, para um sonoro pedido de desculpas.

Dar publicidade a estes fatos é um mecanismo importante para conter a empolgação de ataques machistas, pois uma cena destas pode impactar tremendamente a reputação de quem se atreve.

Ladeira a baixo

Parece que é improvável abrir um caminho favorável ao Brasil no próximo ano. Entretanto, continuar indo para as ruas com cores de roupas combinadas pelas midias sociais, tirando “selfies” e carregando cartazes em inglês realmente não altera o quadro desilusório que vivemos. Eu não vejo pessoas pressionando a classe política para promover as mudanças que almejam.

Mudar o estado das coisas é sempre possível, embora nem sempre num curto prazo se considerarmos que, com raras exceções, as pessoas se atiram na política não porque é um ideal ou um trabalho bom, eles vão para fazer conexões e alianças para depois, legislarem em causa própria. Isso é algo que certas pessoas vão continuar fazendo enquanto existir a humanidade. O interesse próprio é o que alimenta as pessoas, constrói estradas, hospitais, escolas, indústrias etc…Já viu estrada construída por igreja, ou por uma organização não governamental?

As ações políticas permeiam nossas vidas do amanhecer ao entardecer e queiramos ou não, somos protagonistas ou coadjuvantes desse sistema que aí está. Se você não vota, não pode reclamar, porque foi omisso. Se você vota, não pode reclamar porque você concordou em participar, optou por confiar na proposta de algum candidato. Fazer o que? Votar direito. Cobrar os direitos.

É contra a frouxidão no controle dos gastos públicos, contra o suborno que corre solto que devemos nos posicionar. É por conta dessas práticas de privilégios que a desigualdade social persiste e avança no Brasil e no mundo. Pensa bem: 1% da população mundial possui tanto dinheiro quanto os 99% restante da população do mundo. A estatística do Credit Suisse, apenas reforça o que é perceptível: os ricos estão ficando mais ricos e os pobres, relativamente mais pobres. No Brasil a desproporcionalidade é gigante e a expectativa de mais um ano ruim, deixa para análise um cenário bem sombrio.

O governo anunciou cortes. Será garantida a execução apenas de obras já contratadas e em estágio avançado rumo a conclusão e os gastos importantes mas não obrigatórios foram remanejados ou serão cancelados. Mantidos os Programas  de inclusão social e transferência de renda, como Bolsa Família, que são importantes para fomentar o desenvolvimento humano. É improvável que estas medidas sejam suficientes para conter a crise econômica e política e  não é realista esperar que a classe política abra mão dos privilégios num ano que vão dedicar-se a salvar suas próprias peles.

Enfim, ladeira a baixo todo santo ajuda. Despencamos! Fico a cismar…negar Chico Buarque é um direito, mas um povo que exalta Wesley Safadão? Sinceramente? Nem todos os santos podem nos conduzir ladeira acima

Pequenas intervenções

Nós estamos juntos nesse grande mistério que é viver. Nós caminhamos, corremos, dançamos e descobrimos que a vida é um presente maravilhoso para ser compartilhado entre os iguais e diferentes. Os desafios que enfrentamos são sérios e são muitos. Eles não serão vencidos com facilidade ou num curto período de tempo. O que desejamos nem sempre é possível, por isso temos que saber esperar, renunciar, sem alardear.  A cooperação deve substituir o conflito na construção de relações políticas saudáveis, de modo que as pessoas possam desfrutar do direito a ter direitos em todas as esferas da vida. Ainda estamos a aprender a ser um todo, a ser uma coisa só.

Se queremos crescer, temos de estar dispostos a aceitar uns aos outros em um nível mais profundo do que temos feito até agora. Temos de estar dispostos a unir as faces das diferenças de crença e de perspectiva. Ainda que dotada de certa inquietação e insubordinação numa sociedade marcada por porteiras e fronteiras, discorro sobre os poderes extraordinários dos seres humanos, que mantém-se no limiar do que pode ser explicado, dentro da moralidade ortodoxa que nos vigia.

Nós temos condição de converter nossas histórias, que tem poder de sedução para encantar os jovens. Acho que não deveríamos perder este momento. Não estamos aqui para sermos um fardo pesado ao planeta, ao próximo; estamos aqui para criar um mundo novo; uma sociedade nova que opera baseada no amor e na aceitação do outro e nesse sentido, mesmo as perspectivas mais estranhas podem ter algo genuíno para nos oferecer. Acredito nas pequenas intervenções, no poder das pequenas histórias.

Se estamos seguros de nossas crenças, a filosofia de outros não terá influência sobre o que pensamos, todavia, merece ser ouvida e entendida com respeito. Devemos nos deixar conduzir pela magia sob o pretexto de que é necessário aceitar o diferente, com a riqueza de seus pontos de vista. Na vida, as peças vão se encaixando, os pedaços se juntam para formar o todo, em ordem para que todos possam se sentir confortáveis compartilhando sua peça no quebra-cabeça. Vamos aprendendo que as nossas diferenças exteriores não devem nos manter divididos.

Apesar de nossos vários pontos de vista, temos que estar dispostos a escolher um novo modo de vida sobre o velho e fazer um esforço para preencher a lacuna que começa a se formar entre os vários campos da nossa individualidade. Um dos aspectos mais difíceis da vida é crescer intelectualmente, abrir-se, deixar-se impregnar pelo conhecimento, ver o mundo considerando sua multiplicidade espetacular, encantar-se com a simplicidade das pessoas e então, promover pequenas intervenções no mundo interior, para não ficarmos divididos entre o fascínio e a desilusão no ano que vem.

Guerra política

Numa estrutura extraordinariamente burocrática, ineficiente e atrasada, os homens prosperam em corrupção. Não um partido, não um homem, mas muitos homens que integram o emaranhado sistema partidário brasileiro.

Não existe política partidária coerente no país neste momento. O vice presidente Michel Temer tenta manter o controle de pelo menos metade da bancada do PMDB, os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado estão na lista dos que estavam se beneficiando dos subornos do escândalo de corrupção da Petrobrás. O Partido dos Trabalhadores e a presidente Dilma, enfraquecidos não se entendem.

Menos de um ano do início do segundo mandato, a presidente Dilma vê o pedido de seu impeachment ser aceito pelo presidente da Câmara Eduardo Cunha e ganhar contornos indecifráveis nos próximos episódios, já que uma pesquisa feita recentemente pelo MDA Pesquisa indica que 59,7% dos entrevistados querem a saída da presidente. É certo que a corrupção causa indignação e que ver políticos utilizarem bens públicos como se fossem patrimônios particulares causa não apenas indignação, mas náusea.

Todo esse compadrio existente entre parlamentares é sinal de negociata, de toma lá, vota cá. E isso tem que acabar.

Cunha, dissimulado, disse em entrevista que ele não estava feliz com a aprovação do processo de impedimento contra a presidente, mas que não poderia perder a oportunidade de colocar em pauta esta questão tão discutida em todo país, nos últimos meses. Assim o fez o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), um político que ganhou notoriedade após assinar a autoria do ultrajante projeto  que institui o “dia do orgulho hétero” e pela movimentação de robustos valores nos bancos suíços, provenientes de intragáveis subornos em conexão com a corrupção da Petrobrás.

Tem muitos pupilos espalhados na bancada denominada BBB: Bancada do Boi, Bíblia e Bala. 342 destes ilustres senhores são esperados a votar favoravelmente ao impeachment da presidente, após serem instruídos por membros da Comissão Especial do Impeachment, composta, entre outros por Eduardo Bolsonaro e pelo pastor Marco Feliciano. ( A comissão foi suspensa  pelo Supremo Tribunal Federal até dia 16 de dezembro, porque a escolha de seus membros deu-se em votação secreta, o que não está prevista nem no regimento interno da Câmara, nem na Constituição Federal).

Percebem que até para votar um pedido de impeachment contra a presidente, acusada de atos de corrupção, o fazem burlando a lei? Os líderes de 10 partidos pró-impeachment estão em campo, coletando assinaturas e cooptando adesão de outras siglas. Em entrevistas afirmam que contam com apoio de 280 parlamentares até o momento.

Bizarro mesmo é o PMDB, cujo vice-líder Deputado Darcísio Perondi, afirma que dos 66 membros da bancada, metade é a favor da aprovação do impedimento, que beneficia diretamente seu presidente, Michel Temer, vice-presidente da República do Brasil, outra metade, contra.

Se aprovado na Câmara, a votação segue para o Senado e a presidente ficará afastada do cargo até o fim do processo, ou até por 6 meses

A vida é o que sempre foi

Entre roubos, arroubos, frouxidão, delação, prisão, estamos encerrando mais um ano, numa conjuntura inquietadora, cheia de angústia, num estado de expectativa e de demora para o desfecho do momento político impregnado por fatos e atos estéreis.

O que há? Há um torneio de palavras sonoras disputado por juristas eruditos, que num choque de palavras, como uma brincadeira que causa um misto de terror e contentamento, propõe o impedimento da presidente, para ser julgado por uma corte rasa que, com pouquíssima exceção, concentra sua energia em negociar vantagens e escapar de suas próprias armadilhas.

Mas a intervenção no poder político é salutar quando o povo assim o quer. É com esse olhar turvo de incerteza que terminamos o ano. É provável que essa perspectiva de sombras afete nossos relacionamentos, a paz interior. Mas nós, pessoas sem glória, temos a chance de gesticular e extravasar a indignação, a aflição e apesar da modéstia, com argumentos obstinados, podemos declarar que vida não é apenas aquilo que se extrai no choque do poder e que o poder pode ter efeitos múltiplos que não seja escândalos nem a aniquilação da esperança.

Mas veja o empobrecimento e a desordem do ensino! Não são mais capazes de conter a sã rebeldia dos nossos adolescentes, que tiveram que furar bloqueios policiais, alcançar a rua e pedir apoio para que não fechassem escolas. Em parte, ao menos o cotidiano não apresenta grandes mudanças. As relações revestidas de imagens prematuras vão se estabelecendo pelo poder, se desfazem e se reconstituem em outra dimensão não muito diferente desta.

O poder vai ser sempre alimentado pela raiva e pelas vilanias. Porém é sabido que toda generalização é perigosa. Não se deve colocar todos no mesmo saco.. Há tanta injustiça quanto compaixão, tanto drama quanto frustração, tanto amor quanto dor. Mas é tão difícil perceber as exceções!

Sobre tudo isso se ouve discursos inflamados, disputas públicas e muitas conversas secretas. Resolver? O que? Se cessa esse murmúrio do impeachment, logo começa um outro. Mas, dia virá em o poder será exercido no nível da vida cotidiana, onde o que vale pode ser visto e dito em meio a pequenos gestos, humildade, gentileza e honestidade, virtudes que enriquecem a vida e melhoram os homens.

Entretanto, enquanto não atingimos esse nível de civilização, a ceia do homem comum é um diálogo com o que ele passa durante o ano todo: bebedeira, violência, desentendimento dos casais, arrependimento, promessa e espera.

Esta retórica queixosa é meio típica de final de ano, assim como a contraditória esperança de que viveremos dias melhores num futuro próximo.