É preciso saber nadar

São tantas as travessias

Mares revoltos

Fronteiras fechadas

Arames farpados

Homens armados.

É preciso saber nadar

Para não morar no fundo do mar!

Barcos precários, ondas gigantes

Medo gritante

No peito  angustia cortante

Mãos que escorregam, corpos escapam

A vida, a morte no mesmo instante.

É preciso saber nadar

Quando nada mais vale o lar.

Milhas de sonhos distantes

Bombas explodem no horizonte

Querem que fiquemos

Inertes e pequenos

A mercê dos homens armados

bravos soldados!

Colheita

Olho para o mundo inacabado,
Planto flores, semeio coragem
O que espero colher?
Nada se não chover!
Espreito a vida sem tédio
Sem cansaço e sem temor.
O que espero colher?
Ramos de amor!

Estranho ser somos todos
Incansáveis, insaciáveis e débeis
O que espero mudar?
A mim, criatura pequenina!
Almas desnuda, vontade imprópria
Poesia, romance e remanso.
Para onde vou?

Canto de amor

Eu vi-a e minha alma antes de vê-la

Sonhara-a linda como agora a vi;

Nos puros olhos e na face bela,

Dos meus sonhos a virgem conheci.

Era a mesma expressão, o mesmo rosto,

Os mesmos olhos só nadando em luz,

E uns doces longes, como dum desgosto,

Toldando a fronte que de amor seduz!

E seu talhe era o mesmo, esbelto, airoso

Como a palmeira que se ergue ao ar,

Como a tulipa ao pôr-do-sol saudoso,

Mole vergando à viração do mar.

Dera a mesma visão que eu dantes via,

Quando a minha alma transbordava em fé;

E nesta eu creio como na outra eu cria,

Porque é a mesma visão, bem sei que é!

No silêncio da noite a virgem vinha

Soltas as tranças junto a mim dormir;

E era bela, meu Deus, assim sozinha

No seu sono d’infante inda a sorrir!…

Vi-a e não vi-a! Foi num só segundo

Tal como a brisa ao perpassar na flor,

Mas nesse instante resumi um mundo

De sonhos de ouro e de encanto amor.

O seu olhar não me cobriu d’afago,

E minha imagem nem sequer guardou,

Qual se reflete sobre a flor dum lago

A branca nuvem que no céu passou.

A sua vista espairecendo vaga,

Quase indolente, não me viu, ai, não!

Mas eu que sinto tão profunda a chaga

Ainda a vejo como a vi então.

Que rosto d’anjo, qual estátua antiga

No altar erguida, já caído o véu!

Que olhar de fogo, que a paixão instiga!

Que níveo colo prometendo um céu.

Vi-a e amei-a, que a minha alma ardente

Em longos sonhos s sonhara assim;

O ideal sublime, que eu criei na mente,

Que em vão buscava e que encontrei por fim.

 

Pra ti, formosa, o meu sonhar de louco

E o Dom fatal, que desde o berço é mea;

Mas se os cantos da lira achares pouco,

Pede-me a vida, porque tudo é teu.

Se queres culto – como um crente adoro,

Se preito queres – eu te caio aos pés,

Se rires – rio, se chorares – choro,

E bebo o pranto que banhar-te a tez.

Dá-me em teus lábios um sorrir fagueiro,

E desses olhos um volver, um só;

E verás que meu estro, hoje rasteiro,

Cantando amores se erguerá do pó!

Vem reclinar-te, como a flor pendida,

Sobre este peito cuja voz calei:

Pede-me um beijo… e tu terás, querida,

Toda a paixão que para ti guardei.

Do morto peito vem turbar a calma,

Virgem, terás o que ninguém te dá;

Em delírios d’amor dou-te a minha alma,

Na terra, a vida, a eternidade – lá!

Se tu, oh linda, em chama igual te abrasas,

Oh! Não me tardes, não tardes, – vem!

Da fantasia nas douradas asas

Nós viveremos noutro mundo – além!

De belos sonhos nosso amor povoo,

Vida bebendo nos olhares teus;

E como a garça que levanta o vôo,

Minha alma em hinos falará com Deus!

Juntas, unidas num estreito abraço,

As nossas almas uma só serão;

E a fronte enferma sobre o teu regaço

Criará poemas d’imortal paixão!

Oh! Vem, formosa, meu amor é santo,

É grande e belo como é grande o mar.

E doce e triste como d’harpa um canto

Na corda extrema que já vai quebrar!

Oh! Vem depressa, minha vida foge…

Sou como o lírio que já murcho cai!

Ampara o lírio que inda é tempo hoje!

Orvalha o lírio que morrendo vai!…

Cassimiro de Abreu

Saudade

Saudades, em mim, nunca têm pressa. Demoram tanto que
nunca chegam. Só quando eu danço me liberto do tempo — esvoam
as memórias, levantam voo de mim. Eu devia era dançar
todo o tempo, dançar para ela, dançar com ela.
Mia Couto
al pacino

Lenda Africana “De quando o leão podia voar”

O leão, segundo se conta, tinha a capacidade de voar, e naquele tempo nada escapava dele.  Como ele não queria que os ossos de suas presas fossem quebrados em pedaços, ele fez com que um par de corvos brancos vigiasse os ossos, deixando-os para trás no seu covil, enquanto ele ia para a caça.

Mas um dia Sapo Grande foi até lá, e quebrou todos os ossos em pedaços, e disse: “Por que os homens e animais não podem viver muito?” E acrescentou estas palavras: “Quando ele vier, diga a ele que eu vivo naquele lago, se ele quiser me ver, ele deve vir aí.”

O Leão estava caçando na floresta, e quis voar, mas ele descobriu que não podia mais voar. Então ele ficou com raiva, pensando que alguma coisa estava errada no seu covil  e voltou para casa. Quando lá chegou, ele perguntou: “O que você fez para que eu não voasse?” Então os corvos disseram: “Alguém veio aqui, quebrou os ossos em pedaços, e disse: “Se ele me quiser, ele pode procurar por mim naquele lago lá longe!”

O Leão se foi, e chegou quando sapo estava sentado na margem, e ele tentou saltar furtivamente em cima dele. Quando ele estava prestes a pegá-lo, o Grande Sapo disse: “Ah!” e mergulhou, foi até o outro lado e sentou-se lá. O Leão o perseguiu, mas como ele não conseguiu,  ele voltou para casa.

A partir desse dia, se diz, o Leão caminhou somente sobre seus pés, e também começou a se arrastar (quando espreitava e caçava), e os Corvos Brancos tornaram-se totalmente mudos desde o dia em que disseram: “Nada pode ser dito sobre esse assunto.”

Ser ponte

Alguns roubam para si pedaços do meu universo, devolvem-me partes que não são minhas. Começa o devaneio. Sinto tremores que não são características dos meus medos, sinto fome e não alimento-me do que sacia a alma, sinto fé em deuses estranhos, sigo caminhos tortuosos que abandonam-me ao meio. A invasão do mundo alheio causa essa incerteza de identidade. Agora, canto cantos tristes, lúgubres, o sorriso alheio e indefinido acusa-te de causar a maledicência e o torpor.
O colapso das coisas ruins, que atiram estilhaços distantes, não quero. Deixa-me à minha nugacidade se assim me vês; enquanto procuro repercutir no universo a tendência de querer acreditar, de nutir-me do poder que ascende da autenticidade ou verdade. Deixa-me a paz de refugiar no universo que antes cabia-me a mim e minha fé. Deixa, que eu me estenda para ser caminho, para ser ponte, para ser o que for, desde que bondade!

Não sei quem sou

mulher no fundo do rio
Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros).
Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me aponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteísta se sente árvore [?] e até a flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada [?], por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço.
Fernando Pessoa, “Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação.

Impureza

pétalas vermelhasNós deixamos uma marca, uma trilha, um vestígio. Impureza, crueldade, maus-tratos, erros, excrementos, esperma – não tem jeito de não deixar. Não é uma questão de desobediência. Não tem nada a ver com graça nem salvação nem redenção. Está em todo mundo. Por dentro. Inerente. Definidora. A marca que está lá antes do seu sinal. Mesmo sem nenhum sinal ela está lá. A marca é tão intrínseca que não precisa de sinal. A marca que precede a desobediência, que abrange a desobediência e confunde qualquer explicação e qualquer entendimento. Por isso toda essa purificação é uma piada. E uma piada grotesca ainda por cima. A fantasia da pureza é um horror. É uma loucura. Porque essa busca da purificação não passa de mais impureza.
(Philip Roth, A marca humana)

O medo global de Galeano

Os que trabalham têm medo de perder o trabalho.
Os que não trabalham têm medo de nunca encon­trar trabalho.
Quem não tem medo da fome, tem medo da comida.
Os motoristas têm medo de caminhar e os pedestres têm medo de ser atropelados.
Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras.
É o tempo do medo.
Medo da mulher da violência do homem e medo do homem da mulher sem medo.
Medo dos ladrões, medo da polícia. Medo da porta sem fechaduras, do tempo sem reló­gios, da criança sem televisão, medo da noite sem com­primidos para dormir e medo do dia sem comprimidos para despertar.
Medo da multidão, medo da solidão, medo do que foi e do que pode ser, medo de morrer, medo de viver.”

Eduardo Galeano

O amor, Meu amor ( Mia Couto )

Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.
Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.