Medo à liberdade

Parece que a quantidade de destrutividade encontrada nos indivíduos é proporcional à quantidade em que a expansividade da vida é cerceada. Não estou me referindo às frustrações individuais deste ou daquele desejo instintivo, mas à frustração do todo da vida, ao bloqueio da espontaneidade do crescimento e da expressões das capacidades sensíveis, emocionais e intelectuais do homem. A vida tem um dinamismo interno por si mesma; a vida tende a crescer, a ser expressada, a ser vivida. Parece que se essa tendência é cortada, a energia dirigida à vida passa por um processo de decomposição e muda em energias dirigidas à destruição. Em outras palavras, a vontade de viver e a vontade por destruir não são fatores mutuamente independentes, mas estão em uma interdependência revertida. Quanto mais a vontade em direção à vida é cerceada, mais forte é a energia pela destruição; quanto mais a vida é realizada, menor a força da destruição. A destruição é a consequência de uma vida não vivida. As condições individuais e sociais que geram a supressão da vida produzem a paixão pela destruição que cria, por assim dizer, o reservatório da qual as tendências hostis particulares – seja contra os outros ou contra si mesmo – são nutridas. Base do pensamento de Erich Fromm, filósofo alemão.
A liberdade tem um duplo significado para o homem moderno: que foi libertado das autoridades tradicionais e tornou-se um indivíduo, mas, ao mesmo tempo, ele tornou-se isolado, sem poder, e um instrumento de fins fora dele mesmo, alienado aos outros.

A história de quando a noite reinava na Terra

“Antigamente, não havia senão noite e Deus pastoreava as estrelas no céu. Quando lhes dava mais alimento elas engordavam e a sua pança abarrotava de luz. Nesse tempo, todas as estrelas comiam, todas luziam de igual alegria. Os dias ainda não haviam nascido e, por isso, o Tempo caminhava com uma perna só. E tudo era tão lento no infinito firmamento!

Até que, no rebanho do pastor, nasceu uma estrela com ganância de ser maior que todas as outras. Essa estrela chamava-se Sol e cedo se apropriou dos pastos celestiais, expulsando para longe as outras estrelas que começaram a definhar.

Pela primeira vez houve estrelas que penaram e, magrinhas, foram engolidas pelo escuro. Mais e mais o Sol ostentava grandeza, vaidoso dos seus domínios e do seu nome tão masculino. Ele, então, se intitulou patrão de todos os astros, assumindo arrogâncias de centro do Universo. Não tardou a proclamar que ele é que tinha criado Deus.

O que sucedeu, na verdade, é que, com o Sol, assim soberano e imenso, tinha nascido o Dia. A Noite só se atrevia a aproximar-se quando o Sol, cansado, se ia deitar. Com o Dia, os homens esqueceram-se dos tempos infinitos em que todas as estrelas brilhavam de igual felicidade. E esqueceram a lição da Noite que sempre tinha sido rainha sem nunca ter que reinar.”

MIA COUTO, no livro “A confissão da leoa”

Uma criança, um professor, um livro e uma caneta podem salvar o mundo

Malala Yousafzai , uma ativista a favor da educação é a menina paquistanesa que foi ferida a tiros por um extremista talibã, por frequentar assiduamente a escola. Ela discursou na ONU, em 12 de julho passado, quando completou 16 anos e viu a data ser institucionalizada como “ Dia de Malala”. Usando um xale da ex-premier do Paquistão Benazir Bhutto, que foi assassinada em 27 de dezembro de 2007, agradeceu todas as preces, ajuda e cuidados, dos quais dependeu para sua recuperação, na Inglaterra, para onde mudou-se com a família.

Malala foi firme ao apelar aos governantes que garantam a educação obrigatória e gratuita para as crianças em todo o mundo. No discurso proferido na assembleia das Nações Unidas, falou pouco de si e deu ênfase ao desafio de tornar a educação o carro chefe a mover o mundo.

“Hoje não é o dia de Malala. Hoje é o dia de cada mulher, cada menino e menina que levantou a voz pelos seus direitos. Milhares de pessoas foram mortas pelos terroristas e milhões ficaram feridos. Eu sou apenas um deles. Então, aqui estou eu, uma menina, entre muitas outras, que não fala por si, mas por aqueles que não podem ser ouvidos, por aqueles que lutaram pelos seus direitos. O seu direito de viver em paz, o direito de ser tratado com dignidade, o direito à igualdade de oportunidades, o direito de ser educado. Queridos amigos, em 9 de outubro de 2012, os terroristas acertaram um tiro no lado esquerdo da minha testa. Eles achavam que as balas iam me calar, mas não conseguiram. Em vez do silêncio, despertaram milhares de outras vozes.

Os terroristas pensaram que iriam mudar meus objetivos e frear as minhas ambições. Mas nada mudou na minha vida a não ser que a fraqueza, o medo e a desesperança morreram e uma nova força, poder e coragem nasceram em mim. Eu sou a mesma menina, minhas esperanças e meus sonhos são os mesmos. Estou aqui para falar sobre o direito à educação para todas as crianças. Nós percebemos a importância da luz quando vivemos na escuridão, percebemos a importância da nossa voz quando nos obrigam ao silêncio. No Paquistão, eu percebi a importância de canetas e livros quando vi as armas apontadas. Os extremistas têm medo de livros e canetas. O poder da educação assusta.

Apelamos a todos os governos para lutar contra a violência, para proteger as crianças da brutalidade. Apelamos aos países desenvolvidos para apoiar a expansão das oportunidades de educação para as meninas no mundo em desenvolvimento. Apelamos para que sejam todos tolerantes, para que rejeitem preconceitos de casta, credo, seita, cor, religião. Nós não podemos ter sucesso quando metade de nós está retida na escuridão. Queremos escolas e educação para um futuro de paz para as crianças.

Não podemos esquecer que milhões de pessoas estão sofrendo com a pobreza, com a injustiça e com a ignorância. Não devemos esquecer que milhões de crianças estão fora das escolas. Não devemos esquecer que os nossos irmãos e irmãs estão à espera de um futuro pacífico e brilhante. Por isso então, vamos travar uma luta gloriosa contra o analfabetismo, vamos pegar nossos livros e nossas canetas, pois são eles nossas armas mais poderosas. A educação é a única solução. Educação em primeiro lugar”!

Segundo dados da Unesco, 57 milhões de crianças estão fora das escolas.

Uma longa caminhada até a liberdade

Dia 18 de julho próximo será o Dia Internacional de Nelson Mandela, data que também celebra os 95 anos de seu nascimento. Os líderes do movimento clamam os cidadãos a dedicarem 67 minutos para atos de caridade em suas comunidades. Faz 67 anos que Nelson Mandela devota a sua vida a lutar pela liberdade.

Atrás no tempo, em 1948, a África do Sul estabeleceu o regime da segregação racial em sua constituição. O objetivo era manter os brancos no controle do país, onde os negros não tinham direitos políticos, com a consagração da lei de separação e discriminação por raça no ambiente multicultural do século XX. Filho adotivo de um chefe tribal da etnia Xhosa, Nelson Mandela cresceu com um pé na cultura tradicional da sua tribo e o outro na realidade hostil de uma nação dominada pela discriminação racial. A carreira no direito acrescentou-lhe consciência política e Mandela envolveu-se ativamente na Liga da Juventude da ANC, liderando campanhas e desafiando as políticas discriminatórias do governo Sul-Africano.

Defendia sempre a resistência não-violenta contra o aparthied e nunca gabou-se de ser orador brilhante, tampouco um líder destemido. Como presidente do Congresso Nacional Africano, Mandela exerceu uma liderança moral guiada pelo sonho de ver a África do Sul unida. A luta contra o apartheid intensificou-se na década de 80 e em 1990-1991 a lei do apartheid foi revogada. Mandela, a figura-chave na história da derrota desse sistema perverso, foi eleito presidente em 1994.

Long Walk to Freedom (Longa Caminhada até a Liberdade) é a comovente autobiografia de Nelson Rolihlahla Mandela , um livro que começou a escrever escondido em 1974, já na prisão de Robben Island, onde conta a história extraordinária de sua vida, descreve o ritual de isolamento e cerimônias que marcaram a passagem da infância para a juventude. Ganhou uma bolsa de estudos em Londres, formou-se em direito para ser conselheiro do rei de sua tribo. Mas os anos turbulentos de conflitos raciais, levaram-no a várias prisões, banimento, até que em 1964 fora condenado, sentenciado a prisão perpétua e recolhido em Robben Island.

A cela onde lia-se “N Mandela 466/64” significava que Mandela era o 466º prisioneiro, admitido na ilha, no ano de 1964. Tinha 46 anos de idade, era considerado preso político e perigoso, pois poderia contaminar os outros com seu ideal de igualdade e liberdade. Ficou ali preso por 27 anos. Sabia desde o primeiro dia que cairia doente com algum mal pulmonar, porque a prisão, construída às pressas, tinha as paredes úmidas e pelo chão se formava poças de água durante a noite.

Aclamado como o maior líder moral e político do nosso tempo, desde Mahatma Gandhi, é um herói internacional cujas realizações rendeu-lhe o Prêmio Nobel da Paz de 1993. Aos 94 anos, hospitalizado desde 8 de junho, é acompanhado de perto por um de seus melhores amigos, o arcebispo emérito Desmond Tutu, que disse que mesmo terrivelmente doente, Mandela continua unindo a África do Sul, agora, em preces pelo seu restabelecimento e que o povo não deve lamentar-se, mas lembrar-se do mais precioso momento que Nelson Mandela proporcionou ao país: o reencontro do povo com a liberdade!

História de Pajé Tamoin

“Eu e mais três parentes saímos para pescar. Eu tinha de dar peixes para os tocadores de minha flauta jacuí. Saímos cedo da aldeia. Quando chegamos ao rio, o sol já estava alto. Subiram até o foz do Kurisevo. De repente começaram a ouvir barulho de remo na borda da canoa. Olharam para o lado de onde vinha o barulho e avistaram uma canoa comprida, cheia de homens, umas oito pessoas, enfeitadas de penas na cabeça e nos braços, igual a que eles usavam.

Os remadores não olhavam para os lados, só para a frente. As canoas quase emparelhadas, mas eles só olhavam para frente, corpos fixos, só os braços se movimentavam com os remos. Um sinal claro, que não os via. Tentando explicar o inexplicável, o velho Tamoin conjecturou: – Não sei se eles existem. Mas nós os vimos, mas eles não nos viram. Gente ou visão? E não fomos só nós, muitos outros dos nossos viram também”.

A Arte dos Pajés, Orlando Villas Bôas

A fragilidade do amor moderno

O amor líquido é um livro intrigante do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, que explora as relações humanas, quando as pessoas envolvidas num relacionamento enfrentam o dilema de precisar do outro, mas ao mesmo tempo temem que um relacionamento mais profundo possa deixá-los imobilizados em um mundo de movimento frenético, um mundo onde não há limites para a ilusão humana, para a futilidade dos sonhos. A sensível narração é mais que uma constatação do mundo líquido em que vivemos, da fragilidade dos laços que nos unem, e como esse homem sem vínculos, personagem do nosso tempo moderno, estabelece suas conexões e realiza suas ambições.

Há reflexões por vezes conservadora, mas o tom é de angústia pelos sentimentos humanos, uma emoção confusa, despertada pela pressa de encontrar o par perfeito, mas contraditoriamente, viver relacionamentos com amplas portas de saída para novos encontros, porque a insatisfação está mais presente nos relacionamentos que a afetividade. São coisas muito diferentes, ter parceiro, trocar afeto e comprometer-se. É sobre esse universo marcado por laços que não permanecem, não se estreitam, a ausência de consistência, que derrete a estrutura do relacionamento e torna o amor um sentimento líquido, que escorre por entre os dedos, que Bauman está falando.

É dentro desse contexto moderno que nossos laços, principalmente os antes duradouros, estão se desatando e nos condenando a viver numa sociedade sem raízes profundas.
As pessoas, nessa sociedade moderna e líquida não se vale nem mesmo dos laços de parentesco, preferem constituir laços de amizade ou relacionamento de amor provisórios, soltos o suficiente para não sufocar, mas firmes o suficiente para dar um certo consolo momentâneo, porém não confiável. Ao priorizarmos os relacionamentos artificiais, que podem ser tecidos ou deletados com igual facilidade, não conseguimos mais manter laços duradouros, o que afeta as relações amorosas e os vínculos familiares. Contudo, seria ingenuidade culpar as facilidades tecnológicas pelo recuo da proximidade contínua, do face a face nas relações humanas, que tornaram-se muito frouxas.

Homens e mulheres movimentam-se em várias direções, entram e saem de casos amorosos, tentando acreditar que o próximo passo será o melhor, por isso nunca houve tanta procura em relacionar-se. O moderno mundo líquido é repleto de sinais confusos, frases abreviadas, que mudam muito rápido e de forma imprevisível e substitui a qualidade dos relacionamentos pela quantidade, o que é fatal para nossa capacidade de amar.
Zygmunt Bauman é um dos mais respeitados sociólogos da atualidade, e declara não mais acreditar que possa existir algo como uma sociedade perfeita, diz que a vida é como um lençol curto, quando se cobre o nariz os pés ficam frios, e quando se cobrem os pés o nariz fica gelado.

Não é carnaval em Macondo

A criação de um colombiano errante e nostálgico.

Você me diz que é carnaval, eu digo que não. Não, em Macondo. Ler a biografia de Gabriel Garcia Marquez é como saborear algo que desatina os sentidos. Nascido em Aracataca, no litoral caribenho da Colômbia, na maioria das vezes cético, irônico, andando em círculos para retratar quase sempre o mesmo povoado, os mesmos sobrenomes, Garcia Marquez encheu-me de compaixão quando li “Ninguém escreve ao Coronel”. A solidão alí retratada era na forma maior da dor, do isolamento e incompreensão e daquela esperança que insiste e teima em ficar ali escondidinha na alma. O amor reprimido, de certa forma vivido em meio às cartas e olhares entre Florentino Ariza e Fermina Daza, em “ O Amor nos Tempos do Cólera”, que transforma a impossibilidade extrema em realidade mais de cinquenta anos depois, ampliou a minha capacidade de observar e esperar.

Gabo fala de amores contrariados, do consolo encontrado no sexo sem amor com prostitutas, o cheiro enjoativo das amêndoas amargas e o memorável século de solidão narrado na cidade imaginária de Macondo, que conta a história de seus fundadores, a família Buendía-Iguaran, a história da liberdade e do progresso, das revoluções, corrupções,dos caudilhos autoritários, dos liberais; a obsessão pelo poder e pelo controle da família por homens que não sabiam amar.

Gabriel Garcia Marquez diz-se sempre um contador de histórias, sobretudo das histórias que ouvira de seus avós. Narrou histórias de mulheres fortes, com ânsia de liberdade, ora sensuais e muitas vezes castigadas pela moralidade imposta pelo século XIX; apresentou-nos homens como Aureliano Buendía, solitário e forte, consumido por dilemas morais; homens enamorados e idealistas como Florentino Ariza, que viveu quase no limiar do delírio amoroso.
Garcia Marquez sofreu com seus personagens, com seus amores assombrados. Disse certa vez ser a criatura mais triste e solitária da terra, deve ser verdade, pois deve ser quase impossível distinguir onde estão os limites entre a vida e a poesia. Ao pai principalmente, devia desculpas por não haver trazido para parede da sala da casa, o diploma acadêmico.

Abandonou os estudos, foi viver em Paris. Vendeu garrafas e revistas nas ruas, cantou em bares com amigos, começou a escrever para pequenos jornais, acreditou no jornalismo e na literatura como fonte de vida em todos os sentidos. Vendeu o carro, guardou o dinheiro, que daria para a família viver por seis meses, trancou-se em casa e de lá saiu, um ano e meio depois com a obra-prima “Cem Anos de Solidão”; publicado em 1967 e vencedor do prêmio Nobel de Literatura em 1982. No discurso, ao receber a honraria das mãos do Rei da Suécia, lamentou a distância cultural que se confirmara entre a América Latina e a Europa, as desigualdades sociais seculares; pode enfim falar da sua América Latina – uma pátria imensa de “homens alucinados e mulheres históricas”.

Este homem de ideias socialistas desde sempre, admite que tem medo do escuro quando fica só em casa. Não gosta da mídia, da literatura tratada como comércio, da exposição de sua pessoa em congressos. Diz textualmente ter feito tudo para evitar tornar-se um “espetáculo” popular. Doente, aos 85 anos vive com a esposa Mercedes, no México. O universo de Gabriel Garcia Marquez é algo que entontece. Como não apaixonar-se por homens que arrastam atrás de si um cortejo de borboletas amarelas?

Elogio da Serenidade em Norberto Bobbio

No final da semana li ” Elogio da Serenidade”. Reflito sobre minhas ações.
Quero ser sempre ética, correta, manter o pensamento ordenado para não emitir julgamentos sem conhecimento, para não apontar falhas no que não posso ver, para não culpar por preconceito. o escrito de Bobbio é no sentido de que  devemos compreender antes de julgar, pois o preconceito é um juízo prematuro, derivado de uma crença falsa que provoca opiniões errôneas.
A serenidade resvala o território da tolerância e do respeito pelo pensamento e pelo modo de viver dos outros. E eu quero exercitar a tolerância, numa prática diária, como um método que implica o uso da persuasão diante dos que pensam diferente, sem imposição.
Meu pensamento é livre e minhas atitudes decorrem das minhas crenças e deixo sempre muito claro meu posicionamento, minhas concepções éticas, meu respeito pelas diferenças.
Ser serena é ser tranquila, mas nem um pouco submissa ou concessiva. Permito ao outro ser o que ele é, e nessa lógica, não há máscara para o que sou.

Certo que Bobbio me inspira. Quando eu quis compreender Marx, li Bobbio; para entender o vocabulário político, recorro a Bobbio. Enfim, Norberto Bobbio destaca uma qualidade que vejo, modestamente em mim, a serenidade! Esta virtude que adquiriu ao longo do texto, a qualidade de uma virtude feminina e que Bobbio reconhece como a mais “impolítica” das virtudes.