A florada dos Ipês

Os ipês são o testemunho de um fenômeno botânico. Para que suas flores desabrochem abundantemente, essas árvores flertam com a morte. É o açoite causado pelo frio e pela seca que envelhece e arranca todas as folhas e dispara o relógio biológico dos ipês indicando que é tempo de florescer.

Ou seja, é da experiência de quase morte devido às severidades do clima que vem a beleza dos ipês. A planta entende o estresse como sinal de que seu fim pode estar se aproximando e, como resposta, produz o máximo de sementes para deixar descendentes. Essa explicação dada por um biólogo encontrei numa coluna chamada O Jardineiro Casual.

Somos todos nós contemporâneos desse tempo tão difícil de Imposições de restrições e isolamento, de lidar com os diversos sofrimentos, lidar com as perdas, com o luto, com a depressão, com as ameaças do vírus devastador. Somos todos nós contemporâneos dessas dores.

A morte é difícil de lidar, especialmente quando é inesperada. No Livro Tibetano do Viver e do Morrer encontro a explicação de que todas as coisas que tomam forma, se dissolvem novamente e que a vida é um processo onde todas as coisas são impermanente e imutáveis e, que o ciclo da existência cessa a qualquer momento. Assim como é natural que pessoas que amamos morram, é natural que o sentimento de dor também passe. Seja qual for o sentimento que estamos experienciando, vai passar.

No meio da pandemia a vida continua. As pessoas se apaixonam, se casam, têm filhos e morrem, de causas naturais, eventos trágicos e contaminados pelo vírus. São fatos da vida. Apesar do isolamento e distanciamento social, o ciclo da vida continua e aos poucos temos que sair do bunker que transformamos nossos lares, equipados com todos os recursos necessários para a sobrevivência para retomar o equilíbrio que perdemos para seguir com a missão de conciliar a realização dos sonhos, equilibrar-se em relacionamentos, encontrar paz de espírito, saúde e segurança financeira.

Portanto, sempre que encontro em uma situação difícil, respiro fundo e penso: a vida é toda interconectada. Se o problema surgiu, um caminho deve haver que leve a solução. Surgiu a doença, no tempo que foi possível, descobriram a vacina. Nossos corpos estão se curando. A vida segue o curso. Inexorável!
As vacinas, ainda que lentamente, estão sendo aplicadas, as pessoas estão imprimindo certa normalidade aos dias. Muitos, provavelmente começaram a se sentir melhor, livres dos medos obscuros, da incerteza e das premonições em relação ao futuro. Entretanto, concordamos que o fim da pandemia não significa uma mudança mágica e perfeita de volta à vida Pré-Pandêmica. A transição para a era Pós-Pandemia pode ser lenta e incerta quanto ao comportamento do vírus ao longo de um tempo vindouro.

Mesmo assim, a vida não precisa ser essa série de crises inquietantes e custosas, que ao fim, quase conseguiram desmontar a vida humana, não enquanto houver a exuberância dos sofridos ipês colorindo as avenidas, nos ensinando que devemos nos fortalecer para atravessarmos as rigorosas secas e os bravios invernos da vida.

Amizade, inimizade e política

No comovente ensaio ‘Inimizade e Amizade’ publicado no livro Encontro, o brilhante escritor checo Milan Kundera, conhecido pela obra-prima “A Insustentável Leveza do Ser”, relata seu encontro com um romancista e amigo, que o convida para conversar e passa todo o tempo falando mal de outro poeta, com o qual havia desenvolvido irremediáveis diferenças políticas. Ao fim, Milan Kundera adverte: “Em nosso tempo, as pessoas aprenderam a subordinar a amizade ao que se chama de convicções. É preciso muita maturidade para entender que a opinião que defendemos é apenas a hipótese que defendemos, necessariamente imperfeita, provavelmente transitória, que apenas mentes muito limitadas podem declarar ser uma certeza ou uma verdade. Ao contrário da lealdade pueril a uma convicção, a lealdade a uma amizade é uma virtude, talvez a única virtude, a última que resta. Hoje eu sei: na hora do balanço final, a ferida mais dolorosa é das amizades feridas e nada é mais tolo que sacrificar uma amizade pela política”.

Amigos não são pessoas iguais, não compartilham tudo. O que não se pode deixar acontecer é que divergências se transformem em mal entendidos ou que o descaso ou esperneio com argumentos contrários, transformem o que poderia ser uma boa conversa, em dois monólogos acontecendo ao mesmo tempo.

Períodos pré-eleitorais são propícios para se observar esse fenômeno: de amizades que incendiadas pelas discussões polarizadas sobre política, se transformam em estranhamentos e inimizades. Não é difícil perceber, no destravamento de língua causado pelas mídias sociais, as provocações, intimidações e bloqueios de pessoas que expressam opinião divergente quanto a um ou outro candidato ou partido.

Ouvir opiniões políticas divergentes estimula o pensamento crítico. Cercar-nos de uma pluralidade de pontos de vista não significa que temos que aceitar todos eles. Mas nos ajudará a permanecermos flexíveis, críticos, a termos a mente aberta e a sermos humildes.

Pessoas com perfis progressistas são atacadas e também atacam porque ambos os lados, progressistas ou conservadores não encontraram o tom para as discussões sadias, para a convivência tolerante. Ao negar a si mesmo o acesso interessado a diferentes pontos de vista, você corre o risco de se isolar e perder ensinamentos preciosos e diversos sobre política. Se o amigo à sua frente estiver realmente errado, fazer as perguntas certas pode fazê-lo repensar o argumento.

Creditar mérito apenas às suas ideias, odiar os outros por suas opiniões e considerar as pessoas com diferentes pontos de vista como menos merecedoras de credibilidade, faz exatamente o jogo perverso da política polarizada, que é silenciar uns para dominar o espaço público dos debates.

É uma pena que estas discussões causem rupturas permanentes e tão desnecessárias entre amigos e conhecidos. Há pessoas que reorganizam seus relacionamentos pessoais para a eleição e imaginam que estão assumindo o controle de suas vidas, desfazendo-se de amigos para abraçarem pautas politicas e correligionários temporários.

Tem também o outro lado, pode ser que ao se abrir uma discussão sobre política com alguém considerado amigo, você entra em estado de choque porque a verdadeira face, de argumentos racistas, discursos de ódio, homofobia venham à tona. Pode ser que você não tenha reparado antes nas piadas grosseiras, mas esse comportamento estava lá o tempo todo. Faltou prestar atenção.  Não combina com a política, que é ciência ser discutida em meio a tantas certezas e paixões, recortes ácidos e intimidação.

Quanto a amizade, voltemos a Milan Kundera: “No meu dicionário de descrente, apenas uma palavra é sagrada: amizade”.

Com o estado se tem a desigualdade

Eu concebo que existem dois tipos de desigualdade entre a espécie humana; um, que chamo de natural ou físico, porque é estabelecido pela natureza, e consiste em diferença de idade, saúde, força, as qualidades da mente ou da alma e outro, que pode ser chamado de moral ou política da desigualdade, porque depende de uma espécie de convenção, e é instituída, ou pelo menos autorizada pelo consentimento dos homens. Jean-Jacques Rousseau, no ensaio intitulado “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens”, publicado em 1755.
Para Rousseau é impossível ser, verdadeiramente livre, onde impera a desigualdade. A questão primordial é quanto à desigualdade moral ou a política da desigualdade, que, em seu pensamento, deve ser afastada, combatida, porque corrompe as pessoas, porque dela nasce a diferença de poder, de riqueza e isso é inaceitável.

Quando se fala em desigualdade em uma sociedade capitalista, os primeiros aspectos que vêm à mente são as desigualdades econômicas, que evocam as noções de pobreza e riqueza. No entanto, há também oportunidades de trabalho desiguais, acesso desigual à educação e cultura, vários tipos de hierarquia, preconceito e, principalmente, o tratamento desigual para grupos diferenciados.

O aumento da desigualdade raramente é percebido como sinal de alguma coisa, além de problema financeiro. O sociólogo Zygmunt Bauman cunhou o termo “dano colateral” para falar da forma como os governantes tentam se eximir da responsabilidade quando são acusados de promover das desigualdades. Geralmente asseguram que as açõesde governo contém riscos neutros e não intencionais.Em “Danos Colaterais”,Baumanteoriza sobre a afinidade seletiva entre o crescimento da desigualdade social e a expansão do volume de danos colaterais e considera a tendência de as autoridades lavarem as mãos diante da desigualdade, considerando-a um mal necessário.

A desigualdade social brasileira é sentida nos níveis estruturais e individuais, numa análise pormenorizada feita pelo IPEA, publicada no final do ano passado, ondeexpõe as cicatrizes de um país que se constituiu sob o signo da exploração por uma burguesia estrangeira e tempos depois, a dominação configurou-se na figura dos patrões, donos de engenhos e dos empregados da casa grande. A relação de exploração consentida, como na teoria de Rousseau, foi-se constituindo um meio para se sobreviver. As desigualdades foram sendo escancaradas e comparadas também pelo resultado da pesquisa Desigualdade no Brasil, da Oxfam Brasil e relatório Riqueza Global publicado peloCreditSuisse, mais recentemente. As diferenças sociais e econômicas foram reveladas:1% dos mais ricos no Brasil detém 49,6% da riqueza total do país. Isso significa que o Brasil tem a segunda maior taxa de concentração de riqueza entre 180 países pesquisados.

Esse é um dos sintomas da desigualdade: a fatia de rendaexageradamente generosa acumulada pela elite, com contribuição das “ações neutras ou não intencionais” do estado, como descreveu Bauman. Basta lembrar que o mercado, que favorece o enriquecimento ainda maior de1% que vivem na bolha dos mais ricos no Brasil, é regulado pelo estado.

Há uma grande camada da população que precisa ser assistida pelo estado e a construção de uma sociedade mais igualitária passa por uma rede de proteção estendida pelo estado para proteger os mais vulneráveis, mas a maioria não quer favor dosgovernos, mas ter sua própria capacidade de trabalho aproveitada e viver dela.

Em que pese a extensão do fosso que separa os brasileiros, a igualdade vive no imaginário humano no mundo político, social, econômico, religioso e literário. A natureza humana comum a todos, independentemente das desigualdades sociais que suportamos ou das diferenças pelas quais temos que lutar, faz com que o ser humano pense na igualdade social como um dos seus principais valores.

A teoria do princípio do dano

Sem dúvida alguma, você tem o direito de colocar sua própria vida em risco. As liberdades individuais devem ser respeitadas, mas elas não representam direitos irrevogáveis. Como argumentou na teoria do princípio do dano, o filósofo britânico John Stuart Mill em Sobre a liberdade, 1859: “sua liberdade é limitada pelo dano que pode causar a outras pessoas”. Em outras palavras, a liberdade individual, tal como John Mill a propõe não admite restrições outras que não sejam um eventual prejuízo a outras pessoas.

Quando a ação ou até mesmo a omissão de um indivíduo causar um dano irreparável à coletividade, ele pode ser interpelado, cobrado quanto a sua responsabilidade para com o coletivo. Temos que pensar o quanto é importante para o coletivo que sejamos individualmente responsáveis quanto a pandemia. A partir dessa compreensão cada indivíduo deve fazer a sua parte para reduzir as taxas de infecção e transmissão do vírus e isso implica não ser complacente com as pessoas que agendam e não comparecem para receber a vacina.

Para se ter uma ideia da absurda evasão, reproduzo aqui o que li no site da Prefeitura de Cuiabá: ”Quase 70% das pessoas agendadas para vacinar contra a Covid-19, na quarta-feira (16/06), em um dos seis polos de Cuiabá, não compareceram. Os dados são das equipes que coordenam a vacinação na capital de Mato Grosso. Do total de 4.934 pessoas dos grupos prioritários agendados, somente 1.492 estiveram nos locais, totalizando 3.442 faltosos”.

Segundo uma assistente social que trabalha em um polo de vacinação, as razões da evasão são várias, que vão desde a falta de colaboração de familiares para levar a pessoa para vacinar, esquecimento e também um método utilizado para não receber a dose de determinada vacina, porém, segunda ela, a razão principal é mesmo o descaso no trato da pandemia. A falta do senso de responsabilidade coletiva.

Uma amiga jornalista confidenciou que não compareceu no dia agendado porque viajou para uma visita de rotina à família numa cidade próxima a Cuiabá e quando retornou, reagendou; a professora que faltou ao agendamento, com quem falei também não teve nenhuma razão urgente para ter faltado. Alegou que, embora tenha se cadastrado, não há pressa porque as aulas não começaram e ela não pretende voltar à sala de aula, vai requerer o benefício da licença prêmio e continuar em casa. Sugiro que as pessoas pertencentes a grupo prioritários que não comparecem no dia agendado, deveriam gozar de uma tolerância mínima, sob pena de perderem o status de prioridade.

Num país que acaba de romper a inacreditável marca de 500 mil mortos e ainda registra a absurda marca de mais de duas mil mortes por dia, não há outra alternativa senão renovar nossa fé e a compreensão de que temos que ter responsabilidade com a vacinação, nos proteger, proteger nossa família e tantos quantos nosso gesto puder alcançar. Pequenas ações individuais podem realmente fazer uma diferença de grandes efeitos coletivos, mesmo que seja difícil de perceber.

A vacinação é considerada a intervenção médica mais eficaz e mais barata por meio da qual a imunização individual e coletiva é alcançada. Espera-se que as vacinas diminuam não apenas as taxas de infecção, mas também as taxas de transmissão do vírus. Isso significa que tomar a vacina pode proteger você e outras pessoas e contribuir para que a população alcance a imunidade coletiva o mais rápido possível.

Queres postar? Postas!

Sempre soube que podemos cancelar assinaturas da Netflix, Amazon Prime, TV por assinatura, linha telefônica e até mesmo um “date” (encontro amoroso) porém a moda é cancelar pessoas.

O debate em torno da cultura de cancelamento é, em parte, sobre a forma intolerante como tratamos uns aos outros e, em parte, sobre a frustração com a falta de consequências reais para pessoas que usam, sobretudo as mídias sociais para se expressar e atear fogo em assuntos polêmicos, muitas vezes com argumentos insuportavelmente rasos.

Toda essa retórica dramática de ambos os lados do debate mostra como a cultura de cancelamento incendiária se tornou “modinha”. À medida que as divisões ideológicas parecem cada vez mais intransponíveis, a linha entre o pessoal e o político está desaparecendo para muitas pessoas. Aí a cultura do cancelamento surge como uma marca perturbadora da nossa incapacidade de ouvir, concordar, discordar, argumentar e seguir em frente sem ódio.

Figuras públicas passaram pelo constrangimento do cancelamento e embora possam ter enfrentado longa exposição e críticas negativas consideráveis sendo chamados à responsabilidade por suas declarações e ações, muito poucas delas experimentaram prejuízos maiores.

Para as pessoas que estão cancelando, no curto prazo isso as faz se sentir bem. Isso lhes dá uma ilusão de poder, de controle mas depois percebem que na verdade não fizeram nada de excepcional além de impedir uma discussão que poderia avançar em polêmica, coisa absolutamente natural nos ambíguos espaços públicos.

Nenhuma abordagem sobre tema algum ocorre de forma uniformemente perfeita e antes de responsabilizarmos ou excluirmos o outro, devemos refletir sobre a coerência de nossas próprias ações e falas. Afinal, a cultura do cancelamento é uma ferramenta importante de intimidação implacável da maioria contra alguns? Ou a ideia de ser cancelado funciona para impedir um comportamento potencialmente ruim e desagregador? Creio que cancelamos alguém para nos afirmar diferentes.

Então, dentro destas perspectivas, cancelar uma figura pública pode servir como um corretivo, porém, aplicado diante de um julgamento, quase sempre feito às pressas, que não oferece um exame completo das evidências do “crime”.

Na maioria dos casos, creio que o elemento vital de reparação do mal feito ou mal falado é o debate, dentro de uma abordagem reconciliatória banhada pela crença de que as pessoas podem mudar. Precisamos preservar a possibilidade de desacordo com boa fé, enfrentar as enormes divisões que temos diante de nós, que exige o compartilhamento de ideias, a descoberta de um terreno comum e o uso do que é certo no mundo para remediar o que há de errado.

É melhor que conduzamos nosso trabalho e nossa vida social com um espírito de partilha, generosidade, exploração, curiosidade, experimentação e até mesmo disposição para falhar em nossos esforços sinceros para compreendermos uns aos outros.

Na página da atriz Ilana Kaplan no Instagram, ela representa uma especialista em etiqueta virtual. Responde as perguntas, quase sempre sobre postar falas e fotos inconvenientes nas mídias sociais, ela ouve as histórias e responde com muito sarcasmo:

-Tu queres postar? Postas.

– É de bom tom?

– Não, não é de bom tom!

É por aí que me posiciono. Posso achar algumas falas alheias inconvenientes, superficiais e de péssimo tom, mas a decisão e a responsabilidade de postar não são minhas.

Pobreza compartilhada

Em novembro de 2020, o IBGE divulgou que 13,7 milhões de brasileiros vivem em situação de extrema pobreza. Para este ano as perspectivas são igualmente desanimadoras, a demora na vacinação, economia estagnada, aumento de desemprego e alta taxa de pobreza desestruturaram as bases sociais e econômicas do Brasil e o índice de desemprego atingiu a marca de 14,2%, a maior taxa já registrada desde 2012.

No contexto global, a pandemia e a recessão por si já colocará 1.4% da população mundial em situação de extrema pobreza. Segundo dados do Banco Mundial, é seguro afirmar que a pandemia teve e tem efeito crucial na elevação da taxa de pobreza. Estas informações estão no relatório Pobreza e Prosperidade Compartilhada, publicado em outubro do ano passado.

O relatório reforça que os novos pobres gerados pela Covid-19, serão sobretudo de países que já apresentam taxa alta de pobreza em sua população. Os dados apresentados pelo Instituto Data Favela, dedicados a analisar os impactos sociais da pandemia de Covid-19 nas favelas brasileiras, destacam que 68% dos entrevistados não têm dinheiro para comida.

A migração é apontada como um meio efetivo de tirar o indivíduo da pobreza e em que pese todas as dificuldades mencionadas acima, grandes grupos fazem travessia rumo ao Brasil, buscando uma vida preenchida com acolhimento e emprego, apesar de haver mais brasileiros no exterior do que estrangeiros vivendo no Brasil.

Os haitianos migraram para Cuiabá em números assustadores, quase 4.000 pessoas, entre 2011 e 2016 e o que encontraram não foi uma situação favorável ao estabelecimento de uma vida confortável em Cuiabá. Muitos homens, com bom nível de escolaridade, foram levados para empregos na construção civil, o que lhes garantia a subsistência e nenhuma economia para trazer a família que fora deixada para trás. O haitiano tem tradição na cultura migratória, quase a totalidade dos que vieram para Cuiabá, não estavam vivendo a primeira diáspora.

Transformados em seres invisíveis, sem contar com política pública de integração social e cultural, não tiveram opção senão conviver entre si, em pequenas comunidades estabelecidas em bairros periféricos de Cuiabá. Por esta razão, quase metade desistiu de Cuiabá.

Estamos vivenciando um novo fluxo migratório, bem menor e mais visível, porque as famílias estão nas rotatórias de Cuiabá. Com o agravamento da crise econômica e social na Venezuela, o fluxo de cidadãos venezuelanos para o Brasil cresceu muito nos últimos anos. A maioria dos migrantes venezuelanos não tem cultura migratória e devem ter partido para uma diáspora temporária.

O Centro de Pastoral para Migrantes de Cuiabá, a Casa do Migrante é a referência que o migrante tem no sentido do primeiro acolhimento, da iniciativa de documentação, do encaminhamento para o primeiro emprego, está com hospedagem reduzida devido a pandemia e também porque a procura tem diminuído desde que a maioria dos cidadãos venezuelanos que estão em Cuiabá, fazem o movimento migratório circular enquanto aguardam mudança na situação econômica e política do país, para retornarem.

Algumas pessoas abrigadas na Casa esperam que o poder público local dê-lhes passagem para que possam partir para outro destino, dentro do Brasil, onde vivem outros membros da família. Os estrangeiros abrigados na Casa do Migrante cumprem regras quanto a permanência no local e são proibidos de pedir esmolas nas ruas.

O governo brasileiro tem feito trabalho de convencimento para que os refugiados em Roraima se movimentem voluntariamente para outros estados, por isso estamos convivendo com cenas de famílias inteiras, expostas ao sol, com crianças pequenas e de colo, no cruzamento de ruas com grande movimento de veículos. Estão vivendo como pedintes, arrecadam certa quantia de dinheiro, compram passagens e seguem em suas diásporas errantes, sem nenhuma estratégia para vencer o estranhamento que os separam das sociedades locais.

A sociedade local? Atira-lhes moedas.

Nunca mais sem nós

Com população estimada em 18 milhões de pessoas, o Chile vai se tornar o primeiro país do mundo a ter a constituição escrita por mulheres em número igual ao de homens. O plebiscito aprovado em 20 de outubro do ano passado, previu a eleição de um grupo de 155 cidadãos especialmente eleitos para serem membros da Convenção Constitucional, com cotas para garantir a diversidade e equidade. Isto parece proposital para diminuir a influência da elite política, dominada basicamente por homens e dar voz as mulheres, no futuro.

Ou seja, os chilenos terão uma Constituição elaborada por um grupo formado por 50% de mulheres. Será a primeira do mundo, a primeira de todos os tempos, a primeira de muitas, esperamos que sirva de modelo para a América Latina!

“Nunca mais sem nós”, foi o grito de demonstração de força das mulheres chilenas que ecoou pelo país em atos de protestos desde 2019. As mulheres têm sido a força progressista na campanha por mudanças no país, afirmando que a constituição atual não as representa nem garante a elas igualdade.

E as conquistas começaram a acontecer depois que vários comícios feministas foram organizados para protestar contra feminicídios, violência em geral contra as mulheres, mas não apenas isso, protestavam também contra o que consideravam desinteresse do estado para debater o tema e enfrentar o problema e investir numa política pública que pudesse fornecer estrutura legal para proteger a vida das mulheres. O movimento feminista chileno assumiu o protagonismo nas manifestações, aliaram-se direita e esquerda e pressionaram a classe política, que sem alternativas, apoiaram a convocação do plebiscito.

Semana passada, as eleições confirmaram os 155 cidadãos constituintes, representantes de todas as regiões do país, eleitos por um período de dois anos, que terão a responsabilidade histórica de escrever a nova constituição, instruída a fazer história na igualdade de gênero na política. Foram eleitos muitos convencionais sem nenhuma vinculação com partidos políticos ou coalizão, um recado claro que a força política tradicional não está sintonizada com o discurso e vontade do cidadão.

Pelas entrevistas lidas, a maioria dos chilenos celebram a vitória do plebiscito, a eleição dos cidadãos que irão escrever a constituição e veem nessa conquista uma oportunidade para reparar as desigualdades sociais e o estabelecimento de política de maior reconhecimento a história dos povos indígenas. No contexto do avanço da participação das mulheres na política, é extremamente poderoso e contagiante o grito das mulheres chilenas.

Ao ler sobre o protagonismo das mulheres chilenas, foi impossível não trazer a lembrança o ano de 2014, quando tive a imensa alegria e responsabilidade de organizar a vinda da Presidente do Chile, Michelle Bachelet a Cuiabá, para a abertura dos jogos da Copa do Mundo. Visita a Embaixada do Chile, visita de encarregados da missão diplomática do Chile, escolha do cardápio para o almoço oficial, convidados, carta de vinhos.

Preocupação de outros, a segurança, a estrutura de veículos e a entrada da Presidente na Arena Pantanal para o jogo de abertura Chile & Australia. A equipe de segurança da presidente nos interpela e alivia a tensão dizendo que a presidente não entraria por nenhuma porta especial destinada a autoridades. Ela chegaria na Arena Pantanal no ônibus com os jogadores da seleção chilena.

A chegada da Presidente redobrou a admiração. Sorriso farto, gestos largos, fala alta, rodeada de crianças pobres, que escolhera para fazer parte da sua comitiva oficial. Uma mulher inspiradora! Médica pediatra, mulher separada que criara sozinha 3 filhos, duas vezes Presidente do Chile, foi Diretora da ONU para questões das Mulheres e atualmente é alta-comissária da ONU para os Direitos Humanos.

Os desafios de um novo normal

Penso que pessoas expostas à mudanças radicais de comportamento durante um longo período, acabam mudando. Quando se abalam as bases de suas referências sociais os indivíduos mudam de lugar, adquirem outros horizontes e a vida segue. Nós somos incrivelmente capazes de nos adaptarmos a qualquer tipo de situação, não importa o quanto seja ruim.

A ansiedade pode perdurar e mudar profundamente a forma como as pessoas interagem umas com as outras por muito tempo, não creio que seja para sempre. 

É provável que as viagens continuem restritas, especialmente porque as sociedades que controlaram a contaminação por Covid-19 em sua população procuram impedir que novos casos surjam e estão fazendo a opção por manter as fronteiras seletivamente fechadas, como é o caso da Austrália, que no momento ainda mantém a opção pela não vacinação de seus residentes, devido ao baixíssimo número de casos. O país, há meses retomou a vida de antes, não   há obrigatoriedade sequer do uso de máscaras e os grandes eventos estão autorizados.

Pode haver momentos e lugares onde as restrições estejam diminuindo, seja porque os casos diminuíram localmente ou em resposta a pressões políticas ou econômicas, como é o caso do Brasil. Mas enquanto o vírus persistir em algum lugar do mundo, a ameaça de novos surtos e o retorno ao bloqueio de fronteiras permanecerão.

O trabalho remoto e as reuniões virtuais, o impacto mais óbvio da pandemia, provavelmente continuarão firmes e a volta das reuniões presenciais, palestras e cursos se darão de forma controlada. As viagens a trabalho foram sensivelmente reduzidas e adaptadas para reuniões virtuais e assim devem permanecer.

Muitos consumidores descobriram a conveniência de comprar on-line. Em 2020, a participação do comércio eletrônico cresceu até cinco vezes mais do que a taxa antes da COVID-19. Muito provavelmente grande parte das pessoas que eventualmente compram on-line durante a pandemia, continuarão a fazê-lo quando as coisas estabilizarem.

São múltiplas e notáveis as transformações em curso e uma visão quase universal é que a relação das pessoas, não todas, com a tecnologia se aprofundou e aprofundará mais à medida que segmentos maiores da população passarem a depender mais de conexões digitais para o trabalho, educação, saúde, compras e interações sociais.

Aqui estamos falando de uma classe privilegiada que pede comida por aplicativo, participa de Lives, assiste aulas on-line, faz compras virtuais, entretanto, a sociedade não é única, desdobra-se em grupos, classes, nem todos vivemos no mesmo tempo. A pandemia está testando a resiliência das comunidades em todo o mundo, exacerbando as desigualdades existentes, tornando visível aqueles para quem o mundo virtual não existe ainda, aqueles que carregam em si um passado de pobreza que nunca muda.

De toda forma, embora não seja suficiente, uma rede de solidariedade foi ativada através dos auxílios emergenciais, presenciamos mobilização para conseguir internação para pessoas em estado grave, uma rede de solidariedade correu a noite tentando comprar uma medicação de alto custo, arrecadação de alimentos para famílias cujo provedor estava infectado, solicitação de adoção de animais de estimação cujo dono faleceu de Covid-19.

Embora a pandemia seja causada por um vírus, as desigualdades realçadas neste período tem causas socias, cuja discussão tem sido sempre postergada. Não será diferente no momento pós pandemia.

As dores do mundo

“As dores do mundo” é o título de um livro de Arthur Schopenhauer. “O melhor consolo no infortúnio ou aflição de qualquer tipo será pensar em outras pessoas que estão em uma situação ainda pior do que você; e esta é uma forma de consolo aberta a todos”.

Mais de um ano após o início da pandemia da COVID-19 e em meio ao processo de vacinação, restrições ainda vigentes,  não sabemos quando a vida pode voltar ao normal nem se teremos as mesmas habilidades de convivência social quando isto acontecer. Um ano de isolamento, de falta de contato físico com familiares e amigos pode nos deixar desconfortáveis quando for possível as reuniões presenciais, as grandes festas. Penso que haverá uma hesitação entre ir correndo em busca do abraço ou permanecer com a atitude distante imposta pela bolha na qual estamos vivendo.

A pandemia do coronavírus interrompeu o fluxo que movimenta quase todos os aspectos da nossa vida diária. As regras rígidas de distanciamento, o medo de ser infectado e a falta de conhecimento sobre as mutações do vírus nos fez voltarmos todas as nossas forças para nossa própria sobrevivência e dos familiares. Nunca nos sentimos tão oprimidos por nossas próprias ansiedades.

O ex-presidente Barack Obama disse num discurso recente que: “o maior déficit que temos em nossa sociedade e no mundo agora é um déficit de empatia. Precisamos muito que as pessoas possam se colocar no lugar de outras pessoas e ver o mundo através de outros olhos”.

Em termos simples, empatia é a capacidade de compreender as coisas sob a perspectiva de uma outra pessoa. É a capacidade de compartilhar os sentimentos e emoções de outra pessoa e entender por que ela está sofrendo.

O espaço no coração para sentir a dor do outro não pode fechar-se em nós mesmos. Ao abrir as mídias sociais, fico entristecida com tantas mensagens de pesar que devo postar. De certo modo constrangida, tenho evitado postar momentos felizes vividos nesse tempo sombrio. Aos poucos o vírus causou uma mudança concreta no meu comportamento, porém um fio de felicidade percorre meu ser, ao constatar que tenho sido fortemente impactada pela dor dos outros, dos que conheço, conheci ou de estranhos.

Densa nuvem de dor tem pairado no mundo, mais especificamente no Brasil, não apenas pelos mortos ou sobreviventes da Covid, mas também pelas mulheres vítimas de violência, pelas crianças negligenciadas, abusadas e mortas por parentes correlatos, pelas crianças mortas em ataques de ódio, pelos 14.272 milhões de desempregados no país, pelo avanço das desigualdades sociais que fizeram com que 19 milhões de irmãos passassem fome no de ano de 2020.  

Entre tragédias, pandemias e injustiças, precisamos efetivamente de vacinas para todos, da garantia do pagamento do auxílio emergencial enquanto durar a pandemia, da punição severa sobretudo para agressores de mulheres e crianças.

Mas pegue leve consigo mesmo. Está tudo bem se você não está conseguindo fazer tudo o que fazia antes. Nada está como antes. Quando tivemos que lidar com ansiedade, medo e compaixão ao mesmo tempo? Quando tivemos que conviver com distanciamento, isolamento em meio a uma crise brava de solidão?

Tudo está instável, o trabalho, a vida, os sentimentos e exatamente por isso é vital olhar em volta e perceber que estamos juntos nesse mar revolto.

A transversalidade entre ser e fazer

A busca do homem por um significado consiste em identificar um propósito que o faça se sentir positivo, o que é essencial para sobreviver as tempestades e guerras simbólicas mas isso nem sempre é levado em conta quando consideramos o ambiente de trabalho da maioria de nós.

O conhecimento que adquirimos deve servir ao interesse da transformação social, subsidiar a reflexão e fornecer armas para desvelarmos a realidade e promovermos sua transformação, sobretudo nesse momento em que sentimos o peso do mundo nas costas. A pandemia impactou a vida de milhares dos mais diversos modos: perda de familiares, amigos, outros perderam o emprego, outros perderam a fé, a esperança.

Há total transversalidade entre ser e fazer, embora o ser deva sempre vir antes de fazer. Não devemos trabalhar pelo trabalho em si, mas pelo que o trabalho pode transformar em nós e na vida de outras pessoas. Nossa identidade não deve ser interpretada apenas a partir pelo nosso desempenho profissional, porém, é uma dádiva incalculável quando o trabalho reflete quem somos, pois seguramente somos bem mais que um profissional fechado nas linhas de um currículo.

O trabalho pode, sim, ser uma das fontes do nosso contentamento se pudermos nos ver no que produzimos. Trabalho e vida são criações compatíveis, transversais, principalmente quando conseguimos liberar o trabalho da relação meramente econômica. Em meio ao turbilhão de dias corridos, não devemos permitir que nossa essência se esvaia em apenas uma direção.

Equilibrar a carreira e o que reclama a vida interior, os pequemos momentos em que ninguém está avaliando é importante para que não sejamos definidos pelo que fazemos ou pelo que outros dizem ou pensam avaliando nossa performance profissional apenas, menos ainda pelo que alcançamos em termos materiais e sim, por quem somos como seres humanos.

Todo esforço que fazemos para consistentemente investir em nossas necessidades interiores, são determinantes para melhorar nossa qualidade de vida agora e no futuro.

Não estamos aqui falando de separação entre vida pessoal e profissional. Estamos falando de viver integralmente o que se carregamos no coração em todos os espaços que ocupamos. Cada pessoa tem uma série de valores com variado nível de importância dado a cada um deles. E o que propomos é que os valores pessoais sejam destacados para que posam impactar de forma positiva as atividades que permeiam o dia-a-dia das pessoas produtivas.

Quando você é maior que seu currículo você influencia as ações, decisões, o comportamento de outros e não permite que haja desconexão entre valores, sonhos românticos e trabalho. Você é a pessoa que é e isso reflete no seu trabalho e além. Nutrir a mente e o corpo com boas leituras, com o convívio harmonioso com pessoas de diferentes `backgrounds´, estar aberto a argumentações de pessoas que pensam diferente, são combustíveis que podem afugentar os demônios interiores.

 Estamos vivenciando um dramático ciclo novo, que exige a prática do autoconhecimento e da introspecção. A autorreflexão é uma ferramenta rica, quando precisamos nos recriar.