VIVER DIARIAMENTE COM O RISCO DA REPROVAÇÃO

Aaceitação de mim, das partes não curadas da minha alma, da impossibilidade de ser forte por muito tempo é uma perspectiva que abro para viver o próximo ano, com meus pontos defeituosos, minhas opiniões, minha voz. Aprender a tomar tempo, tomar distância, emancipar meu destino para confrontar as fatalidades. O sociólogo Zygmunt Bauman diz que a sociologia é hoje mais necessária do que nunca, que os sociólogos são especialistas em compreender aquilo a que estamos fadados porque conhecem a rede complexa das causas que provocam as fatalidades. E para operar neste mundo, é preciso entender como o mundo opera. 

Percebo que um espectro paira sobre esse tempo da nossa existência: pessoas desgastadas, mortalmente fatigadas, assustadas pela precariedade de seus destinos, abandonadas a seus tormentos mentais e agonias da indecisão, que tem transformado a alegria de viver num medo paralisante do risco e do fracasso. Arthur Schopenhauer, com a crueza habitual, diz que a primeira metade da vida, vive-se uma infatigável aspiração de felicidade, a segunda metade, é dominada pelo sentimento de receio que só o sofrimento e rejeição é real.

É sobre esse incômodo de caber num determinado espaço, de direcionar a vida por onde não olhem de soslaio, esse peso desgastante do medo do desprezo, é sobre a importância que damos ao fato de sermos modernos, de estarmos sempre à frente do tempo, num estado de transgressão, críticas e cobrança constantes. Ao corpo adicionaram padrão, a idade tem padrão, os relacionamentos têm padrão. E a sociologia de Anthony Giddens diz que viver uma vida baseada em impulsos momentâneos, modismos, críticas e cobranças, sem práticas sociais habituais e saudáveis é condenar-se a uma existência sem sentido.

Encaixar é tentar se adaptar a um mundo que não é o seu. Pertencer é habitar o mundo como quem você é de verdade. E você nunca se encaixará onde não pertence. Emagrecer para receber elogios, dizer sim para receber agradecimentos são táticas consistentes de transgressão aos nossos limites. Quando você tenta se encaixar, você deixa padrões aleatórios medirem onde você vai chegar, observando se você é bonita o suficiente, inteligente o suficiente, magra o suficiente ou rica o suficiente. Sair desse ciclo falido de cobranças, não significa que você irá extingui-lo, significa que o medo de fracassar e não caber em espaços almejados não mais controlarão sua vida. Viver no meio de uma multidão de pessoas, com valores e estilos de vida em competição, sem garantia alguma de estarmos seguindo o que é certo, é um preço alto a ser pago com nossa desordem psicológica.

Como socióloga, tenho conseguido diagnosticar e revelar fontes sociais de infelicidade, as causas estruturais dos sofrimentos que se multiplicam nos espaço sociais.  Bauman, porém, alerta que compreensão e diagnósticos sociológicos não é o mesmo que cura, trazer à luz as contradições não significa resolvê-las. Percebe então, que minha preocupação repousa em que suas escolhas sejam verdadeiramente livres do peso das críticas e cobranças?

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